sábado, 17 de dezembro de 2016

A Mentira Como Notícia

por David Santos Gómez
Este 2016, que passará à historia como um ano estranho, convulso e incompreensível - exemplo de esperanças e ao mesmo tempo janela para os maiores terrores -, também nos ensinou o quanto é fácil mentir a granel.
E não me refiro às frases que desviam a verdade e se acomodam aos discursos políticos do momento. Não. Isso tem ocorrido sempre. Trato de usar a mentira como centro das arengas populistas que pretendem direcionar a uma cidadania desiludida, desconfiada e temerosa. Porque tudo conduz à formação do medo como caminho para a tomada do poder.
Medo do outro. Medo das instituições. Medo do governo e até mesmo da democracia. O medo absoluto para que um sujeito (homem como Donald Trump, ou mulher, como Marine Le Pen) receba o encargo de fazer o que tenha que fazer para devolver a tranquilidade.
Nunca antes as mentiras foram verdades absolutas como agora porque são muito poucos os que se atrevem a questiona-las. É a preguiça intelectual. O afã de repetir o visto ou escutado como palavra de Deus. Sem confirmar fontes. O ritual tão contemporâneo de falar de tudo quando nada se sabe.
E isto tem consequências porque não são proclamas etéreas ou correntes de "chats" imaginárias que passam de grupo em grupo até tornarem-se tema de conversação de almoços e caírem no esquecimento. Tratam-se de falsidades que trazem implicações sociais, que geram comportamentos discriminatórios e, em alguns casos, podem até causar a morte dos implicados.
Foi o que se passou nesta semana em Washington. Nos agitados meses da passada campanha presidencial norte-americana, circulou a falsa notícia de que Hillary Clinton e seu chefe de campanha, John Podesta, dirigiam um centro de tráfico de crianças como escravas sexuais em uma pizzaria da cidade. Correu nas redes sociais a "hashtag" #PizzaGate até que Edgar Welch, um homem indignado, decidiu armar-se, entrar no restaurante e acabar à bala com o que considerava uma aberração democrata. Tudo era falso, exceto as balas que saíram de seu fuzil de assalto. Portava, também, um revólver, uma escopeta e um punhal. Estava decidido a matar e morrer.
Felizmente, o que poderia ser um massacre alimentado pela falsidade midiática finalizou sem feridos e com Edgar Welch atrás das grades. Talvez as próximas loucuras não terminem com um balanço tão bom.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: a irresponsabilidade de pessoas com acesso a meios de divulgação - de jornalistas vendidos que propagam o que seus compradores determinam a idiotas úteis que divulgam estultices que não resistem a alguns segundos de reflexão, passando por equipes de militantes encarregados de difundir as "verdades partidárias" no mundo virtual - conseguiu avacalhar até com boas ideias como a do Facebook. As redes sociais, invadidas por esses sem-escrúpulos, atualmente, já não servem para informar, mas só para confundir os menos atentos, mesmo que as intenções não sejam desonestas. Um bom e recente exemplo foi o noticiário sobre a tragédia que vitimou a equipe de futebol do Chapecoense.
Logo após a certificação de que houve sobreviventes, particularmente os dois profissionais de transporte aéreo, alguém achou que poderia usar o fato com o bom objetivo de propagar os sempre úteis e ignorados "protocolos de segurança" em caso de acidentes aéreos. Assim, surgiu o boato de que um dos comissários de voo havia se salvado por ter adotado a "posição fetal", com uma mala entre os joelhos, ao perceber a proximidade do acidente ante o pavor dos demais ocupantes do avião. A versão foi repetida por diversos meios.
Posteriormente, o mesmo jornal que difundiu a versão do "protocolo de segurança" publicou outra versão, supostamente dada pelo mesmo tripulante, afirmando que ninguém havia se apercebido da iminência da tragédia, nem mesmo ele
Este foi só um exemplo das mentiras que nos são empurradas goela abaixo, todos os dias, pela "grande imprensa". São inverdades ou meias verdades forjadas, algumas vezes de acordo com pesquisas prévias, para angariar audiência (fofocas sobre as ditas "celebridades" - artistas, atletas, ou "socialites", porque não dizer "garotas de programa" glamourizadas -, que na realidade não tem importância alguma são o exemplo mais fácil de ser verificado) ou "formar opinião" de acordo com os interesses das empresas, interesses esses, nem sempre virtuosos. Interesses econômicos, certamente, negociados com anunciantes, políticos, etc, em troca de algum benefício. Nem vou abordar, neste texto, o enorme destaque que é dado ao futebol e seus figurantes, como se o "esporte bretão" tivesse alguma importância,
E o pior é que, apesar dos inúmeros "códigos de ética", profissionais e das empresas, raramente se encontra um "erramos" ou "pedido de desculpas" feito pelos mentirosos. Afinal, neste mundo onde somos soterrados a cada minuto por uma avalanche de dados, verdadeiros ou mentirosos, nossa pobre memória se torna incapaz de fazer a devida diferenciação entre o relevante e o insignificante. E uma mentira a mais, uma mentira a menos, não nos faz diferença.
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