sexta-feira, 28 de outubro de 2016

PCC, o Cartel do ‘Narcosul’

por Ricardo Vélez Rodríguez
Ao longo das últimas décadas o Primeiro Comando da Capital (PCC) converteu-se no cartel do “Narcosul”. Nascido da reação contra o massacre do Carandiru (1992), o PCC já domina a maior parte dos presídios brasileiros. E dessa posição passou a dominar o tráfico de drogas no Brasil e na região do Mercosul. Daí o nome dado pelos meliantes à organização: “Narcosul”. É o que revela a pesquisa publicada pela revista Veja sob o título: O Carandiru e o PCC" (edição 2498, de 5/10, páginas 84-97).
Era questão de tempo o Brasil ter o seu grande cartel das drogas. Acontece que, em política, se falta a perspectiva estratégica (que, infelizmente, está longe da mente dos nossos políticos), fica aberta a porta para eventos negativos. É o que está acontecendo com a força demonstrada pelo PCC em matéria de narcotráfico. Hoje ele é a principal organização criminosa brasileira, que rivaliza, em lucros, com as maiores empresas do País, chegando a ocupar a 16ª posição, com ganhos da ordem de R$ 20,3 bilhões por ano, à frente de grandes empresas como a Volkswagen e a JBS Foods.
Como se chegou a isso, depois de termos conhecido as desgraças patrocinadas na Colômbia pelo cartel de Medellín, de Pablo Escobar, nos anos 80 e 90 do século passado? A resposta é: descaso e populismo.
Esse perigoso binômio nos levou a menosprezar a lição dada pela Colômbia após sofrer a dura guerra do narcotráfico e da narcoguerrilha, com os seus mais de 250 mil mortos. Lembro que no final dos anos 90 fiz uma palestra no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio, no Rio de Janeiro, acerca das desgraças produzidas pelo narcotráfico na “Cidade Maravilhosa”, que se tornou incontrolável depois do ciclo populista dos dois governos de Leonel Brizola.
Alertava, na época, para o risco de o Brasil se tornar palco do crescimento de grandes cartéis de drogas em decorrência do vácuo que o populismo abriu em matéria de segurança pública e também como consequência do vazio econômico provocado pela insegurança jurídica ensejada pelo “socialismo moreno” do caudilho gaúcho, que fez mais de 800 empresas abandonarem o Rio de Janeiro quando da primeira administração brizolista, que começou em 1983, à sombra da retórica socialista das “perdas internacionais” que o capitalismo teria trazido ao País. Brizola, efetivamente, deu o grande passo em matéria de abrir espaço para o crime organizado, ao pregar que a polícia não subia em morro. Os traficantes ocuparam rapidamente o vácuo aberto e, orientados pelos meliantes colombianos, começaram a adquirir armamento pesado. Data daí a explosão da violência que o narcotráfico ainda impõe aos cidadãos cariocas.
O empurrão inicial dado pelo brizolismo ao narcotráfico no Rio veio ser potencializado, em nível nacional, pelos 13 anos de populismo lulopetista, que simplesmente abriram as portas para o mercado de tóxicos no Brasil. Lula, no palanque em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, com Evo Morales, no início do seu primeiro governo, ostentando no peito um colar feito de folhas de coca: foi essa a imagem que percorreu o mundo do narconegócio, indicando o “liberou geral” dos petistas para a produção e a distribuição das drogas. Rapidamente o Brasil viu aumentar de forma fantástica a entrada de pasta-base de coca boliviana. O cocalero Evo Morales não fez por menos: ao longo dos governos petistas, simplesmente duplicou a extensão que os bolivianos dedicavam ao cultivo da folha de coca, a fim de destinar a maior parte da produção ao mercado de tóxicos brasileiro.
Resultado: viramos mercado para a droga, ao mesmo tempo que nos firmamos como corredor de exportação de narcóticos para a Europa. Do mercado americano, cada vez mais próspero, os nossos meliantes deixaram que cuidassem os mexicanos, que ocuparam rapidamente o vácuo deixado com a morte de Pablo Escobar, em 1993. As coisas facilitaram-se enormemente para os traficantes da América do Sul com a instauração, na Venezuela chavista, de um autêntico narco-Estado, que passou a proteger a narcoguerrilha colombiana das FARC e intermediou a compra de armas (lembremos que Fernandinho Beira-Mar era um dos elos da cadeia de aquisição de armas em troca de cocaína no mercado americano e também no Brasil).
O corredor brasileiro de exportação de cocaína transladou-se do Centro-Sul do País para as desguarnecidas cidades do Norte e do Nordeste, carregando consigo a sua procissão de assassinatos e violência generalizada, que explodiu nessas regiões. A África Ocidental, ocupada por narco-Estados, passou a ser a nova fronteira a ser atingida pelos traficantes brasileiros. Mas o Brasil virou também, como previam os mafiosos italianos no final dos anos 1980, um próspero mercado para o consumo de entorpecentes.
Segundo a pesquisa divulgada pela revista Veja (na edição citada no início deste artigo), o Brasil tem 2 milhões de viciados em cocaína, 1 milhão de dependentes de crack e 1,5 milhão de usuários de maconha. Esses consumidores regulares de tóxicos garantem ao PCC um lucro que, como frisei anteriormente, chega hoje aos R$ 20,3 bilhões por ano. Vai ser difícil nos desfazermos dessa indústria da morte, hoje plenamente estabelecida e que funciona pelo País afora, dinamizada pela enorme e abandonada população carcerária (que já chega a 550 mil indivíduos), dominada em sua maioria pelo PCC. Um verdadeiro exército da morte, que espalha assassinatos nos presídios e em todos os cantos do Brasil! Mais uma herança perversa do populismo brasileiro.
Abre-se, pois, nova frente para desmontarmos o descaso aberto no País pelo populismo. Mas é melhor agirmos enquanto é tempo. O PCC já mostrou que tem bala na agulha.
*Coordenador do Centro de pesquisas estratégicas da UFJF,
 professor emérito da ECEME,
 é docente da Faculdade Arthur Thomas, Londrina
 e-mail: rive2001@gmail.com
Fonte:  Estadão

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sobre Grampos e Direito à Proteção

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A respeito da polêmica causada pela Operação Métis (vão meter em outro, tô fora!) da Polícia Federal, apesar do asco que tenho pelas figuras políticas envolvidas, gostaria de fazer algumas considerações gerais, usando a velha e batida "estória" de que "todos são iguais perante a Lei".
Pelo que está sendo noticiado, aparentemente Policiais Federais usaram Operações de Busca e Apreensão para, durante a execução das mesmas, instalar - com a devida autorização judicial - equipamentos de escuta em escritórios e residências de senadores investigados nos inúmeros procedimentos a respeito da roubalheira epidêmica que assola nosso país, a fim de obter provas contra os políticos.
Como os patifes investigados podem ser adjetivados de qualquer coisa, menos de ingênuos, usaram sua autoridade política para que tais equipamentos fossem localizados e/ou neutralizados. Esclareço que isto é uma inferência que faço a partir do noticiário divulgado.
E como foi feita essa localização das escutas eletrônicas? Por meio de inspeções técnicas efetuadas por membros da Polícia Legislativa do Senado Federal, denunciadas por um membro que não concordava com tais missões.
Antes de prosseguir, abramos um parêntese. O sigilo das comunicações individuais é um direito constitucional que só pode ser quebrado mediante determinação judicial. Obviamente, nenhum juiz comunica ao investigado que suas conversas telefônicas - ou feitas no interior de sua residência - serão ouvidas e gravadas. Entendo que a decisão dessa "invasão de privacidade" seja fundamentada pelo fato da "linha" telefônica (inclusive celular) ser uma concessão governamental, isto é, em última instância, administrada pelo Estado. Agora, imagine você, caro leitor, sua faxineira lhe apresentando um aparelhinho estranho que ela encontrou sob a mesa de sua sala ou você mesmo encontrar algo assim na cabeceira de sua cama. Ou, ainda, você simplesmente desconfiar (devido a algum peso na consciência) que está sendo vigiado eletronicamente. Que fazer? Chamar a polícia? Promover uma quebradeira nos móveis e paredes de sua moradia na procura de coisas estranhas? Contratar sigilosamente um especialista no assunto? E se você for um Senador da República com uma equipe de especialistas disponíveis para fazer esse trabalho especializado? Apresento essa hipótese com uma ressalva importante: a interceptação telefônica é feita nas centrais, pelas próprias concessionárias. Já a instalação de um dispositivo de escuta em sua moradia ou em seu local de trabalho, me parece uma simples agressão aos direitos constitucionais previstos no Art 5º da CF: 
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; 
XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

O fato de alguém ter capacidade de ouvir o que ocorre em seu domicílio, mesmo que por via eletrônica pode ser considerado similar a que esse mesmo alguém tenha penetrado no local?
Fechemos o parêntese e retornemos ao assunto inicial.
A existência de uma "polícia legislativa" não é novidade. Já nos idos de 1964 o STF, em sua Súmula 397, reconhecia essa capacidade congressual.
SÚMULA Nº 397, de 1964, do STF: O poder de polícia da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em caso de crime cometido nas suas dependências, compreende, consoante o regimento, a prisão em flagrante do acusado e a realização do inquérito.
A princípio, andei comentando que o Art 144 da Constituição Federal relaciona os órgãos policiais brasileiros e não faz referência a "polícia legislativa", posteriormente, me dei conta de que o citado artigo trata de Segurança Pública.
Reza a Constituição Federal, em seu Art. 52, que compete privativamente ao Senado Federal:
XIII - dispor sobre sua organização, funcionamento, polícia, criação, transformação ou extinção dos cargos, empregos e funções de seus serviços, e a iniciativa de lei para fixação da respectiva remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias;
Já a Resolução nº 59, de 5 Dez 2002, do Senado Federal, em seu Art. 2º afirma: 
§ 1º São consideradas atividades típicas de Polícia do Senado Federal: 
I – a segurança do Presidente do Senado Federal, em qualquer localidade do território nacional e no exterior; (...) 
III – a segurança dos Senadores e de servidores em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal; (...)
Essas "competências" foram ratificadas pelo Ato do Diretor-Geral nº 1516, de 31 Mar 2005, que "Estabelece as competências da Secretaria de Segurança Legislativa do Senado Federal e das Subsecretarias e Serviços a ela subordinados". 
Art. 15 – Ao Serviço de Segurança de Dignitários compete executar o Plano de Segurança dos eventos oficiais no âmbito do Senado Federal; prover a segurança dos Senadores e autoridades brasileiras e estrangeiras nas dependências sob a responsabilidade do Senado Federal; prover a segurança dos Senadores e de servidores em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal; dar cumprimento às determinações do Diretor da Subsecretaria de Proteção a Autoridades e executar outras tarefas correlatas.
Não quero prolongar este texto em demasia, assim, desejo expressar algumas inferências minhas.
1 - O conceito de "segurança", quando se trata de autoridades, abrange bem mais que a chamada "segurança física", indo até a segurança da imagem, da honra, etc, da pessoa protegida;
2 - Os "policiais legislativos" agiram no cumprimento de ordens recebidas, de acordo com a legislação que rege suas funções;
3 - Alega-se que foram executadas inspeções eletrônicas - utilização de pessoal e equipamentos públicos - em imóveis de um ex Senador, o que configuraria mau uso de recursos. Todavia, o ex Senador citado é, também, um ex Presidente da República que tem direito a segurança especial, a ser proporcionada pelo Gabinete de Segurança Institucional.
4 - Não foi citada na imprensa a ocorrência de danos a equipamentos de vigilância eletrônica que houvessem sido instalados nos locais inspecionados pela Polícia Legislativa, o que não exclui a possibilidade de que tais danos tenham ocorrido.
Onde quero chegar com toda essa conversa?
Sou um crítico das ações dos defensores dos Direitos Humanos na forma como ocorrem tais ações, sempre agredindo as ações policiais. Porém, isto não quer dizer que não deva haver alguma reação a efetivos abusos cometidos por agentes do Estado.
Mesmo se considerarmos os gastos de recursos públicos nas ações da Polícia Legislativa fora das dependências do Congresso Nacional, me parece ter havido exagero na prisão de agentes e do Chefe da Polícia Legislativa.  Alguém imagina que não há equipes realizando atividades semelhantes em outros órgãos governamentais? Se até grandes empresas possuem departamentos de segurança em suas estruturas, seria muita ingenuidade imaginar que a Polícia Legislativa seja uma exceção no país. 
Assim, me parece que a prisão dos funcionários do Congresso foi um tanto afoita e desproporcional.  
Se um Senador da República - e quero ressaltar novamente meu enorme desapreço pelos envolvidos no fato - não tem o direito de resguardar sua intimidade e vida privada, o que resta de direitos constitucionais ao cidadão comum? 
Ao fim, de tudo isto, penso que essa pantomima foi um "tiro no pé, (equivocado ou proposital) só servindo para reforçar os esforços de Renan Calheiros no sentido de colocar em pauta e aprovar a tal "lei contra os abusos de autoridade".
Recordem (confira na imagem no início) que a "denúncia" do servidor que serviu de estopim ao caso ocorreu em junho de 2016, mas a Operação Métis foi desencadeada agora, quatro meses depois. 
Analise os fatos sem considerar os envolvidos, imaginando que a "vítima" pode ser você (mesmo e principalmente se você nada teme porque nada deve) e responda: a quem interessa e a quem/o que favorece?
(Imagens copiadas da internet)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Grupelho Que Põe em Risco o Acordo Com o ELN

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por Ricardo Monsalve Gaviria

Para ver o mapa em maior tamanho, clique aqui.
Igual ao ocorrido com uma facção da Primeira Frente das FARC, que se declarou em dissidência no processo de paz, uma parte do ELN poderá semear dúvidas sobre a coesão dessa guerrilha nos diálogos que recém iniciam.
El Colombiano soube que com base em interceptações feitas nas comunicações dos chefetes do ELN, o Exército estabeleceu que na Frente Ocidental, que atua no Chocó, poderiam existir desacordos com as políticas do Comando Central (CoCe) dessa quadrilha, cujos diálogos de paz com o Governo iniciarão sua fase pública no próximo 27 de outubro.
"Eu estou com as políticas do CoCe, mas não as assumo", é o que teria dito "Fabián" nas últimas interceptações, segundo a Inteligência Militar. Ele é o principal chefe dessa Frente, reconhecida pelos bloqueios ilegais que executa nas vias que ligam Medellin e Pereira com Quibdó, assim como por praticar atividades ilícitas como narcotráfico e mineração ilegal.
"Da Frente Ocidental há grupos muito ativos como o 'Manuel Hernández El Boche' e o 'Cacique Calarcá', os quais praticam atividades ilegais nas vias que conduzem a Quibdó; o 'Ché Guevara' e a 'Resistência Cimarrón' se dedicam à economia ilegal [arrecadação de propinas] produto do ouro e narcotráfico no [costa do] Pacífico e possuem muitos recursos por esses lados", assegurou a Inteligência Militar.
Luis Eduardo Celis, analista da fundação Paz e Reconciliação, considera que enquanto não houver um pronunciamento público de algum dirigente do ELN, é muito difícil saber se há unidade ou não.
"Eu creio que se deve esperar que evolua a mesa [de negociações]. Se nenhuma liderança se opôs até o momento, é porque há uma decisão de levar esses diálogos adiante", assegura o analista, que acredita que com o avançar da agenda de negociações se poderá medir quanta coesão existe "e se se apresentam dissidências, como ocorreu com uma pequena facção da Primeira Frente das FARC".
Por sua parte, Eduardo Álvarez, da fundação Ideias para a Paz, adverte que deve ser considerado que a Frente Ocidental tem uma realidade muito diferente dos outros grupos do ELN no país. "Ali, a pelo menos um ano, estão lutando com as quadrilhas de criminosos", e acrescenta que "a evolução do conflito e a forma como foram pelo Estado gera desarticulação e por conseguinte, problemas de coesão onde lideranças mais jovens podem não estar tão conectados com o CoCe".

Esperam Instruções
Com o anúncio da data para o início da fase pública de diálogos com o ELN, no Ministério da Defesa esperam instruções para saber o futuro das campanhas de prevenção ao recrutamento e de desmobilizações que ainda funcionam em outras zonas do país.
Segundo o Coronel (Reserva) José Mauricio Cote, assessor do Ministério em campanhas de prevenção e recrutamento, "é muito provável que toda a estratégia atual contra o ELN, que havia se fortalecido há alguns meses, sofra uma mudança, sem dúvida estamos à espera de instruções". Entretanto, as ações para motivar as desmobilizações continuam em Bolívar, Catatumbo, Cauca, Arauca, Chocó e Antioquía. No corrente ano de 2016, houve a desmobilização de 237 integrantes do ELN.

Personagens
Ogli Ángel Padilla Romero, vulgo “Fabián”, faz parte da Direção Nacional do ELN. Segundo a Inteligência Militar, ele se encontra, atualmente, no departamento (Estado) de Chocó, onde estrutura-se a "Frente de Guerra Ocidental" da citada guerrilha. Essa organização, dizem as autoridades, recebe recursos econômicos oriundos da mineração ilegal, narcotráfico, sequestros e extorsões realizadas nessa zona do país.
A Inteligência militar acredita que “Fabián”, pode não estar de acordo com algumas políticas do Comando Central do grupo guerrilheiro.

Outra liderança influente na Frente Ocidental é Emilcen Oviedo Sierra, conhecida como "Martha" ou "La Abuela" (a Avó). Ela dirige as atividades da 'Frente Manuel Hernández 'El Boche" - que atua nos municípios de Bagadó,  Medio e Alto Baudó, Itsmina, Lloró, Mistrató, Nóvita, Palmadó, Puerto Rico e Tadó, todos em Chocó - e 'Cacique Calarcá', nos limites entre Chocó e Risaralda, comandando as ações terroristas do ELN, particularmente as ocorridas na via Pereira-Tadó. Ela também coordena atividades delinquenciais como sequestros, extorsões a comerciantes e a transportadoras.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
imagens copiadas de El Diario del Otún

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Até Onde Vai a Disciplina e a Hierarquia?


O Chefe do Estado Maior Conjunto (JCS da sigla em inglês), o General dos Fuzileiros (Marines) Joseph Dunford fez o que nenhum presidente do JCS jamais fez antes! Sem surpresa, foi preciso um General Marine para enfrentar o presidente Barack Obama, na esteira de mais uma de suas duvidosas decisões de Segurança Nacional.
A mesma equipe insensata de negociação Obama/Kerry que firmou um acordo com o Irã minando a nossa segurança nacional, recentemente tentou fazer um acordo com a Rússia tão questionável como aquele. Este obrigava a participação do Pentágono, em um acordo de compartilhamento de Inteligência com o Comando Central da Rússia na Síria - constituído mediante um cessar-fogo abrindo o caminho para as negociações de paz em Genebra, Suíça.
Mas, ao contrário do acordo nuclear do Irã, onde o Chefe do JCS nada fez, o atual, general Dunford, expressou publicamente a sua objeção.
Testemunhando perante a Comissão de Serviços Armados do Senado em 22 de setembro, Dunford deixou claro que os militares se recusam a executar o que foi o elemento central da nova política Síria de Obama, ou seja, a partilha de informações com a Rússia, apesar da ordem do presidente de que isso fosse feito.
Chamando-a de uma má idéia, Dunford disse: "O papel militar dos EUA não incluirá o intercâmbio de informação com os russos." Sentado ao lado de Dunford durante o depoimento estava seu chefe civil, o secretário de Defesa Ash Carter, que não levantou qualquer objeção.
A implicação de seu testemunho era óbvia – o acordo do presidente com a Rússia estava minando a segurança nacional dos EUA. Dunford, tendo se libertado do redemoinho de Obama, não estava disposto a aceitar isso.
Durante seus oito anos no cargo, Obama demonstrou uma incrível capacidade de pôr em perigo os interesses de segurança nacional dos EUA sem nunca ter sido desafiado pelos responsáveis ​​em executá-la.
O Congresso abandonou completamente a sua responsabilidade a este respeito, mais notavelmente ao permitir que Obama driblasse o Senado para colocar um acordo nuclear com o Irã em vigor. O acordo – sendo juridicamente um tratado, carece de aprovação de dois terços do Senado – foi apresentado como um não-tratado, ou seja, uma ordem executiva, pois Obama sabia que não poderia conseguir essa aprovação.
O acordo com o Irã, depois de, tanto o candidato presidencial Obama como o presidente Obama, ter prometido mais de duas dezenas de vezes não fazê-lo, abriu o caminho para Teeran obter armas nucleares – legalmente em dez anos, antes, se feito de forma ilegal.
Sem o conhecimento do Congresso, o acordo também incluiu acordos laterais – um dos quais permitia que Teeran realizasse os seus próprios controles sem sequer o principal negociador, secretário de Estado John Kerry, saber os detalhes. Também resultou no levantamento das sanções contra o Iran e a transferência de bilhões de dólares, com algumas transferências em dinheiro que foram escondidas do Congresso.
Os votos do Senado daqueles que conhecendo os detalhes do acordo nuclear com o Irã ou, apesar da obrigação de conhecê-los, deixaram de aprendê-los, em última instância possibilitaram que Obama subvertesse a Constituição dos Estados Unidos e aprovasse um tratado com menos do que a maioria obrigatória de dois terços.
O acordo, que Obama promoveu como abertura de uma porta para melhorar as relações entre os EUA e o Irã, resultou naquela porta sendo fechada na cara dos norte americanos. Uma vez que o Senado aprovou o acordo, o número de confrontos navais com o Irã dobrou, com Teeran, agora, chegando a ameaçar abater os aviões espiões dos EUA que operam no espaço aéreo internacional.
Mas não foi só o Senado que falhou com o povo americano em assegurar que fosse dada prioridade aos interesses de segurança nacional dos EUA, liquidando o acordo nuclear com o Irã.
Os Fundadores dos EUA impuseram limitações aos militares dentro da Constituição para garantir que eles sempre se mantivessem subordinados à autoridade civil. Por mais de dois séculos, a Constituição tem trabalhado de forma eficaz para garantir isso.
Assim, no ano passado, quando o JCS revisou os termos de um acordo nuclear do Irã negociado pela autoridade civil, o presidente do JCS, General de Exército Martin Dempsey teve pleno conhecimento de seus termos e dos acordos laterais secretos, cabia a ele agir de acordo com os interesses da segurança nacional norte americana, conforme permitido dentro da Constituição.
De nenhuma maneira um líder militar responsável poderia ter endossado este acordo, sabendo que os acordos secretos laterais abriam o caminho para um Irã com armas nucleares. Dempsey tinha a obrigação de advertir Obama sobre isso. E, caso Obama ignorasse seu conselho, Dempsey deveria ser forçado pela ética a pedir sua demissão. Isso teria transmitido a mensagem de que o Senado deveria rejeitar o acordo também. Dempsey deixou de fazê-lo, permitindo que o Senado aprovasse um tratado injusto.
Tornou-se claro, quando Obama conseguiu colocar Kerry e outros no governo, bem como no serviço militar, para apoiar as suas iniciativas questionáveis ​​de segurança nacional, que ele tem uma habilidade fascinante para atrair outros à sua rede de pensamento perigoso para a segurança nacional.
Claramente, Obama criou um vórtice em Washington girando em sentido contrário aos interesses da segurança nacional dos EUA. Este redemoinho provou ser capaz de sugar para dentro dele aqueles no governo responsáveis por garantir que ações questionáveis ​​de segurança nacional do presidente não passassem em branco.
Mas a esperança pode agora estar no horizonte devido à posição de princípio de Dunford.
É inconcebível aceitar que o presidente procure compartilhar inteligência com a Rússia por duas razões.
Em primeiro lugar, como um aliado do Irã, Moscou, obviamente, compartilharia o que soubesse com Teeran, comprometendo os futuros esforços de cobrança dos EUA.
Em segundo lugar, Dunford, durante suas audiências de confirmação de Julho de 2015, havia alertado o Congresso que a Rússia representava "uma ameaça existencial para os Estados Unidos... se você olhar para o seu comportamento, é no mínimo alarmante."
Quatorze meses depois, a avaliação da Dunford não tinha mudado, testemunhando "uma combinação de seu comportamento, bem como da sua capacidade militar me fariam acreditar que eles representam o maior desafio, potencialmente, a ameaça mais significativa, para os nossos interesses nacionais."
Felizmente para os norte americanos, mas infelizmente para os sírios, o cessar-fogo falhou depois de 300 violações, negando, pelo menos em curto prazo, o esquema de partilha de inteligência de Obama com a Rússia e, assim, poupando de qualquer outro comprometimento a segurança nacional dos EUA.
É desconfortável saber que Obama ainda tem quatro meses restantes de mandato. É reconfortante saber, no entanto, que o general Dunford, tendo sucesso em se libertar do vortex de Obama, estará lá para desafiar qualquer outra decisão presidencial duvidosa tentando minar a segurança norte americana.
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O autor do texto, Tenente-Coronel James G. Zumwalt, USMC (Reformado), Editor colaborador do Family Security Matters (“Questões de Segurança da Família”), é oficial de Infantaria da Marinha reformado, serviu na Guerra do Vietnam, na invasão do Panamá e na primeira guerra do Golfo. Ele é o autor de "Bare Feet, Iron Will Stories the Other Side of Vietnams Battlefields" (Pés Descalços, Vontade de Ferro - Histórias do outro lado dos campos de batalha do Vietnam, em tradução livre) e freqüentemente escreve sobre questões de defesa e política externa.
Tradução: William Uchoa
Publicado em Papéis Avulsos
COMENTO: a relação entre o Presidente dos EUA e seus Generais nem sempre é marcada pela cordialidade. 
É conhecido o dialogo que ele manteve com o General Stanley McChrystal por ocasião da exoneração deste último do Comando das tropas yankees no Afeganistão. Repriso o que foi difundido à época.
Quando McChrystal foi chamado ao Salão Oval por Barack Obama, já sabia que as coisas não estavam indo bem, mas estava preparado e quando o presidente o repreendeu por não apoiá-lo em seu papel político como Presidente, respondeu-lhe: "Sr. Presidente, não é o meu trabalho apoiá-lo como político, é o meu dever apoiá-lo como Comandante-em-chefe", e entregou a sua renúncia a Obama. 
Não satisfeito com o pedido de renúncia de McChrystal, o presidente ainda quis fazer uma graça na despedida dele dizendo: "Aposto que quando eu morrer, você vai ficar muito feliz em mijar na minha sepultura." 
O general fez uma continência e disse: "Sr. Presidente, eu sempre disse a mim mesmo que depois de deixar o Exército, nunca mais vou entrar em filas."
Esses incidentes nos mostram que os Comandantes Militares norte americanos aceitam ser comandados por um civil, desde que esse não extrapole sua autoridade colocando o país em risco. No Brasil, tivemos alguns casos em que Oficiais Generais expuseram, com a franqueza peculiar dos que labutam na caserna, seus pontos de vista divergentes de autoridades civis. Os políticos não gostam de enfrentar essa verdade: cargos políticos são temporários, cargos militares são vitalícios. A profissão Militar é a única que exige o juramento de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Pode parecer demagogia, mas é a verdade. Não há cidadão mais preocupado com os destinos da Nação do que um militar dedicado.
Para finalizar, lembro duas frases marcantes na História do Brasil, formuladas no início do século passado. A primeira do General Bertholdo Klinger (1884-1969), que referindo-se a importância do cargo de chefe do Executivo diz: “O posto supremo do País é problema de Estado-Maior.”
A outra frase é do também General, Pedro Aurélio de Góis Monteiro (1889-1956), em seu livro A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército: (...) sendo o Exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve-se criar no sentido de se fazer a política do Exército e não a política no Exército. A política do Exército é a preparação para a guerra e esta preparação interessa e envolve todas as manifestações e atividades da vida nacional, no campo material — no que se refere à economia, à produção e aos recursos de toda a natureza (...).

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Novo Imbecil Coletivo

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Outro texto antigo, mas que deve ser lembrado:
por Olavo de Carvalho
Quando entre os anos 80 e 90 comecei a redigir as notas que viriam a compor O Imbecil Coletivo, os personagens a que ali eu me referia eram indivíduos inteligentes, razoavelmente cultos, apenas corrompidos pela auto-intoxicação ideológica e por um corporativismo de partido que, alçando-os a posições muito superiores aos seus méritos, deformavam completamente sua visão do universo e de si mesmos. Foi por isso que os defini como “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras”.
Essa definição já não se aplica aos novos tagarelas e opinadores, que atuam sobretudo através da internet que hoje estão entre os vinte e os quarenta anos de idade. Tal como seus antecessores, são pessoas de inteligência normal ou superior separadas do pleno uso de seus dons pela intervenção de forças sociais e culturais. A diferença é que essas forças os atacaram numa idade mais tenra e já não são bem as mesmas que lesaram os seus antecessores.
Até os anos 70, os brasileiros recebiam no primário e no ginásio uma educação normal, deficiente o quanto fosse. Só vinham a corromper-se quando chegavam à universidade e, em vez de uma abertura efetiva para o mundo da alta cultura, recebiam doses maciças de doutrinação comunista, oferecida sob o pretexto, àquela altura bastante verossímil, da luta pela restauração das liberdades democráticas. A pressão do ambiente, a imposição do vocabulário e o controle altamente seletivo dos temas e da bibliografia faziam com que a aquisição do status de brasileiro culto se identificasse, na mente de cada estudante, com a absorção do estilo esquerdista de pensar, de sentir e de ser – na verdade, nada mais que um conjunto de cacoetes mentais.
O trabalho dos professores-doutrinadores era complementado pela grande mídia, que, então já amplamente dominada por ativistas e simpatizantes de esquerda, envolvia os intelectuais e artistas de sua preferência ideológica numa aura de prestígio sublime, ao mesmo tempo que jogava na lata de lixo do esquecimento os escritores e pensadores considerados inconvenientes, exceto quando podia explorá-los como exceções que por sua própria raridade e exotismo confirmavam a regra.
Criada e mantida pelas universidades, pelo movimento editorial e pela mídia impressa, a atmosfera de imbecilização ideológica era, por assim dizer, um produto de luxo, só acessível às classes média e alta, deixando intacta a massa popular.
A partir dos anos 80, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Lev Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita.
Do ponto de vista do aprendizado, do rendimento escolar dos alunos, e sobretudo da alfabetização, os resultados foram catastróficos.
Não há espaço aqui para explicar a coisa toda, mas, em resumidas contas, é o seguinte. Todo idioma compõe-se de uma parte mais ou menos fechada, estável e mecânica – o alfabeto, a ortografia, a lista de fonemas e suas combinações, as regras básicas da morfologia e da sintaxe -- e de uma parte aberta, movente e fluida: o universo inteiro dos significados, dos valores, das nuances e das intenções de discurso. A primeira aprende-se eminentemente por memorização e exercícios repetitivos. A segunda, pelo auto-enriquecimento intelectual permanente, pelo acesso aos bens de alta cultura, pelo uso da inteligência comparativa, crítica e analítica e, last not least, pelo exercício das habilidades pessoais de comunicação e expressão. Sem o domínio adequado da primeira parte, é impossível orientar-se na segunda. Seria como saltar e dançar antes de ter aprendido a andar. É exatamente essa inversão que o socioconstrutivismo impõe aos alunos, pretendendo que participem ativamente – e até criativamente – do “universo da cultura” antes de ter os instrumentos de base necessários à articulação verbal de seus pensamentos, percepções e estados interiores.
O socioconstrutivismo mistura a alfabetização com a aquisição de conteúdos, com a socialização e até com o exercício da reflexão crítica, tornando o processo enormemente complicado e, no caminho, negligenciando a aquisição das habilidades fonético-silábicas elementares sem as quais ninguém pode chegar a um domínio suficiente da linguagem. 
O produto dessa monstruosidade pedagógica são estudantes que chegam ao mestrado e ao doutorado sem conhecimentos mínimos de ortografia e com uma reduzida capacidade de articular experiência e linguagem. Na universidade aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias especialidades acadêmicas que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que leem, seja no que escrevem.
Aplicado em escala nacional, o socioconstrutivismo resultou numa espetacular democratização da inépcia, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre todos os jovens brasileiros estudantes ou diplomados, sem distinções de credo ou de ideologia. O novo imbecil coletivo, ao contrário do antigo, não tem carteirinha de partido. 
Diário do Comércio, 30 Out 2012.