sábado, 30 de janeiro de 2016

Os Militares e os Mosquitos

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Mensagem encaminhada pelo Coronel Balbi ao Ministério da Defesa e ao Gabinete do Comandante do Exército, em função da notícia sobre a ampliação da atuação das Forças Armadas no combate ao mosquito Aedes Aegypti.

Gostaria de me apresentar. Sou o Coronel Reformado do Exército Brasileiro Marco Antonio Esteves Balbi.
Dirijo-me aos senhores pelo fato de não ter conseguido encontrar outro canal apropriado para apresentar a minha reclamação e a minha sugestão.
O assunto diz respeito à ampliação da atuação de militares no combate ao mosquito Aedes Aegypti, conforme difundido no dia de ontem, [27 Jan 16] através de entrevista do Ministro da Defesa.
Passei 34 anos no serviço ativo. Estou há 15 anos na reserva/reformado. Jamais em minha vida constatei uma Organização Militar que não primasse pela limpeza das suas instalações, aí incluídas as áreas destinadas aos exercícios militares. Mesmo aquelas áreas cedidas por terceiros eram rigorosamente limpas e restabelecidas quaisquer alterações porventura realizadas antes da sua devolução. Assim, repudio a ideia difundida de que as 1200 Organizações Militares do país necessitem realizar um mutirão de limpeza. Aliás, basta passar por qualquer outro órgão público federal, estadual ou municipal para constatar o verdadeiro contraste no cuidado com a coisa pública, comparando-se com qualquer Organização Militar de qualquer uma das três Forças Singulares. 
Se a finalidade é chamar a atenção da sociedade sugiro que sejam feitos mutirões de limpeza em universidades, hospitais e outras instalações que, a olhos vistos, exalam sujeira e descuido por todos os lados. Coloquem os professores e os estudantes, os médicos e os enfermeiros, por exemplo, com material de limpeza na mão para um mutirão nos seus locais de estudo e trabalho.
Utilizem-se dos clubes de serviço das cidades, Rotary e Lions para campanhas de esclarecimento, junto com os meios de difusão, as associações classistas de empresários e trabalhadores, as igrejas de todos os credos, políticos, ONGs etc. Garanto que se reunirá, se houver liderança, um efetivo muito maior e engajado do que os homens e mulheres das Forças Armadas.
Quanto a distribuição de material impresso, pergunto: por que os Correios já não estão fazendo isso? E as diversas concessionárias de serviços públicos que distribuem as contas pelas casas dos brasileiros? Tem que ser militar das Forças Armadas para fazê-lo?
No que diz respeito à terceira fase da operação, imagino que os 50 mil militares serão treinados para atuar no combate ao mosquito, ficando habilitados a fazê-lo nas mesmas condições, incluindo sua própria segurança, dos agentes que irão acompanhar.
E para finalizar, seria trágico se não fosse cômico, militares visitarem escolas para reforçar a conscientização dos estudantes no combate e no controle do vetor. Pergunto: onde estão os professores, diretores, pedagogos destas escolas que já não estão, desde o primeiro dia de aula do ano letivo que se inicia realizando este tipo de trabalho? E as associações de pais e mestres já estão cooptadas e sensibilizadas a trabalhar em prol da comunidade?
Por mais que compreenda que as Forças Armadas gozem, seus homens e mulheres, do mais alto nível de confiança da sociedade brasileira, esta não é por certo sua principal missão constitucional, mas apenas mais uma atividade subsidiária, das muitas que cumpre por todo o Brasil. 
Cordiais saudações
Marco Antonio Esteves Balbi
Recebido por correio eletrônico
COMENTO:  Há quem discorde da manifestação do Coronel?? Com a palavra as autoridades e representantes das entidades citadas, particularmente as que gostam de se titular como "sociedade civil organizada".
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Quem é Renan Calheiros?

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Um texto antigo, mas com tema atualíssimo para que todos saibam sobre quem é o atual presidente do Senado Federal brasileiro.
por Marco Antonio Villa
A República brasileira nasceu sob a égide do coronelismo. O federalismo entregou aos mandões locais parcela considerável do poder que, no Império, era exercido diretamente da Corte. Isto explica a rápida consolidação do novo regime justamente onde não havia republicanos. Para os coronéis pouco importava se o Brasil era uma monarquia ou uma república. O que interessava era ter as mãos livres para poder controlar o poder local e exercê-lo de acordo com seus interesses.
Mesmo durante as ditaduras do Estado Novo e militar, o poder local continuou forte, intocado. A centralização não chegou a afetar seus privilégios. Se não eram ouvidos nas decisões, também não foram prejudicados. E quando os regimes entraram em crise, na “nova ordem” lá estavam os coronéis. Foram, ao longo do tempo, se modernizando. Se adaptaram aos novos ventos econômicos e ao Estado criado a partir de 1930.
O fim do regime militar, paradoxalmente, acabou dando nova vida aos coronéis. Eles entenderam que o Congresso Nacional seria ─ como está sendo nas últimas três décadas ─ o espaço privilegiado para obter vantagens, negociando seu apoio a qualquer tipo de governo, em troca da manutenção do controle local. Mais ainda, a ampliação do Estado e de seus recursos permitiu, como nunca, se locupletar com os bancos e empresas estatais, os recursos do orçamento federal e, mais recentemente, com os programas assistenciais.
A modernização econômica e as transformações sociais não levaram a nenhuma alteração dos métodos coronelísticos. A essência ficou preservada. Se no começo da República queriam nomear o delegado da sua cidade, hoje almejam uma diretoria da Petrobras. A aparência tosca foi substituída por ternos bem cortados e por uma tentativa de refinamento ─ que, é importante lembrar, não atingiu os cabelos e suas ridículas tinturas, ora acaju, ora preto graúna.
Não há nenhuma democracia consolidada que tenha a presença familiar existente no Brasil. Melhor explicando: em todos os estados, especialmente nos mais pobres, a política é um assunto de família. É rotineiro encontrar um mesmo sobrenome em diversas instâncias do Legislativo, assim como do Executivo e do Judiciário. Entre nós, Montesquieu foi tropicalizado e assumiu ares macunaímicos, o equilíbrio entre os poderes foi substituído pelo equilíbrio entre as famílias.
Um, entre tantos tristes exemplos, é Renan Calheiros. Foi eleito pela segunda vez para comandar o Senado. Quando exerceu anteriormente o cargo foi obrigado a renunciar para garantir o mandato de senador ─ tudo em meio a uma série de graves denúncias de corrupção. Espertamente se afastou dos holofotes e esperou a marola baixar.
Como na popular marchinha, Renan voltou. Os movimentos de protesto, até o momento, pouco adiantaram. Os ouvidos dos senadores estão moucos. A maioria ─ incluindo muitos da “oposição” ─ simpatiza com os seus métodos. E querem, da mesma forma, se locupletar. Não estão lá para defender o interesse público. E ridicularizam as críticas.
Analiticamente, o mais interessante neste processo é deslocar o foco para o poder local dos Calheiros. É Murici, uma paupérrima cidade do sertão alagoano. Sem retroagir excessivamente, os Calheiros dominam a prefeitura há mais de uma década. O atual prefeito, Remi Calheiros, é seu irmão ─ importante: exerce o cargo pela quarta vez. O vice é o seu sobrinho, Olavo Calheiros Neto. Seu irmão Olavo é deputado estadual, e seu filho, Renan, é deputado federal (e já foi prefeito). Não faltam acusações envolvendo os Calheiros. Ao deputado estadual Olavo foi atribuído o desaparecimento de 5 milhões de reais da Assembleia Legislativa, que seriam destinados a uma biblioteca e uma escola. A resposta do Mr M da política alagoana foi agredir um repórter quando perguntado sobre o sumiço do dinheiro. E teve alguma consequência? Teve algum processo? Perdeu o mandato? Devolveu o dinheiro que teria desviado? Não, não aconteceu nada.
E a cidade de Murici? Tem vários recordes. O mais triste é o de analfabetismo: mais de 40% da população entre os 26 mil habitantes. De acordo com dados do IBGE, o município está entre aqueles com o maior índice de incidência de pobreza: 74,5% da população. 41% dos muricienses recebem per capita mensalmente até um quarto do salário mínimo. Saneamento básico? Melhor nem falar. Para completar o domínio e exploração da miséria é essencial contar com o programa Bolsa Família. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, na cidade há 6.574 famílias cadastradas no programa perfazendo um total de 21.902 pessoas, que corresponde a 84,2% dos habitantes. Quem controla o cadastro? A secretária municipal de Assistência Social? Quem é? Bingo! É Soraya Calheiros, esposa do prefeito e, portanto, cunhada de Renan.
O senador é produto desta miséria. Em 2007, quando da sua absolvição pelo plenário do Senado (40 votos a favor, 35 contra e seis abstenções), seus partidários comemoraram a votação como uma vitória dos muricienses. Soltaram rojões e distribuíram bebidas aos moradores. E os mais fervorosos organizaram uma caravana a Juazeiro do Norte para agradecer a padre Cícero a graça alcançada
Porém, o coronel necessita apresentar uma face moderna. Resolveu, por incrível que pareça, escrever livros. Foram quatro. Um deles tem como título “Do limão, uma limonada”. Pouco antes de ser eleito presidente do Senado, a Procuradoria-Geral da República o denunciou ao STF por três crimes: falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. Haja limonada!
COMENTO:  para atualizar o texto, complemento que o filho do senador Renan, José Renan Vasconcelos Calheiros Filho, foi eleito Governador de Alagoas, no primeiro turno das eleições de outubro de 2014, com 52% dos votos. Já no começo de janeiro, uma pesquisa de avaliação revelou que o Governador alagoano era o melhor avaliado do país, com 67,5% de aprovação.  Haja limão para tanta limonada! 
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Os Soldados que Sobreviveram a 20 Anos de Guerra

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por Ricardo Monsalve Gaviria
Ser Soldado profissional na Colômbia significa, entre muitas outras coisas, sacrifício. Porém chegar aos 20 anos de atividade e poder terminar o serviço pelo país, é uma conquista que poucos podem contar com finais felizes. Essa historia, a escreveram 665 homens que se retiraram da instituição em 2015, e iniciaram este ano de 2016 como civis.
A estes, lhes tocaram as épocas mais difíceis do conflito armado que assola a Colômbia. Cada um deles tem recordações boas e más - trágicas -, mas sempre chegam à mesma conclusão: tudo que viveram foi com amor à Pátria e à família que tiveram e formaram durante o tempo em que estiveram no Exército.
"Nossos Soldados são pessoas que em um ano veem seus familiares por duas vezes; uma no primeiro semestre e a outra no segundo semestre. Por isso, agora que a Instituição os devolve ao seio de seus lares, sentem-se muito orgulhosos. A mim pessoalmente impactou muito perceber em muitos deles um sentimento de pesar por deixar as fileiras do Exército; demonstrando que isto é muito importante, porque apesar da alegria de estarem regressando para suas casas, já sentem a nostalgia da perda da sua Instituição que os teve durante 20 anos", comentou o General Leonardo Pinto, que até dezembro foi Comandante da 7ª Divisão de Exército e agora se encontra no Estado Maior da Instituição.  

Memórias para toda a vida
Hugo León López é um desses Soldados profissionais que passaram à vida civil e qualifica seus 20 anos como "maravilhosos, cheios de recordações boas, más ou tristes ao lado de companheiros que voltou a encontrar depois da inatividade, muitas histórias com uma mescla de emoções inesquecíveis".
Ainda que tenha servido nas Forças Especiais, na Escola de Lanceiros, na Diretoria de Recrutamento e até na Presidência, seus pensamentos sempre terminam em um lugar conhecido como Tamborales, localizado na zona rural e limítrofe dos municípios de Mutatá (Antioquia) e Riosucio (Chocó). Alí, em 14 de agosto de 1998, um ataque de várias "frentes" do Bloco José María Córdoba das FARC, que alcançavam centenas de guerrilheiros, tomaram de surpresa as unidades militares. Esse dia dividiu sua história em duas partes.
"Éramos uns 150 homens e entramos em choque com 2.000 guerrilheiros, depois de horas de combate nos acabou a munição, ficamos limpos, aí iniciou o desespero de ver como morriam Soldados; nos restou usar esses corpos dos companheiros e armar uma pilha para que nos servissem como trincheira. Eram os nossos companheiros caídos, com os quais havíamos nos divertido na noite anterior, porém naquele momento era questão de vida ou morte, nos tocou usa-los como barreira para poder sobreviver", recorda Hugo León, que acrescentou que o pior, para ele, apenas se iniciava naquela noite.
Os combates terminaram com 42 Soldados mortos e 21 sequestrados, entre eles, Hugo León. "Lá estive quase três anos sequestrado, por sorte, apareceu uma oportunidade e consegui escapar com uma guerrilheira, que era namorada de um chefete que, depois de tanto [sofrer] maus tratos, me escutou e consegui convence-la para escaparmos e, assim foi. Nos 'mandamos', ela, outro Soldado e eu; conseguimos sobreviver 15 dias com uma libra (500g) de rapadura e outra de açúcar até que encontramos a tropa e conseguimos nos salvar, porque os guerrilheiros já estavam por perto e para lá [acampamento] não voltaríamos com vida", relata o ex militar, que pouco sabe sobre a vida atual da mulher que o ajudou a recuperar a liberdade. "Ela esta viva e creio que vive no Canadá, gozando de um asilo político", diz.

Com os melhores
As operações denominadas "Odisséia" e "Fênix", nas quais morreram "Alfonso Cano" e "Raul Reyes" - os dois principais homens das FARC -, sempre serão motivo de orgulho para William de Jesús Posada Úsuga, ex Soldado profissional que também disse adeus à Instituição, que segundo ele o "formou como pessoa e o converteu em homem e Herói da Pátria".
Este ex integrante das Forças Especiais do Exército foi um daqueles homens que, depois dos bombardeios aos acampamentos guerrilheiros, tinham como missão cercar e proteger a área afetada, e recuperar os corpos das "pessoas importantes" que morreram em função dos ataques.
William recorda que depois do bombardeio a "Raul Reyes", o movimento de tropa foi algo que nunca havia visto antes. "Não pensávamos que iria cair alguém grande, mas depois de ver tantos cadáveres, os especialistas se fixaram especificamente em um, depois nos contaram quem era".
Apesar de tudo o que viveu no Exército, o ex Soldado Posada nunca vai esquecer a morte de um companheiro no departamento (Estado) de Meta. "Ele sentiu o disparo e gritou que lhe haviam acertado, quando chegamos onde estava, sorria e assim morreu, com um sorriso na cara. Foi ali que eu entendi que tudo isso valeu a pena".

Tempo para a família
Depois desses 20 anos de serviço, nos quais esses Soldados riram, gozaram, sofreram, choraram e deixaram para trás a dezenas de companheiros e amigos, dedicarão seu tempo para suas famílias, as pessoas mais contentes com essa "aposentadoria". São centenas de pais, mães, esposas e filhos que tiveram que apegar-se a orações para pedir que esses Soldados regressassem e conseguissem superar cada dia.
Adriana María Cano Sepúlveda é a esposa de Hugo León López, e diz que não há mulher que seja mais feliz que ela; e reconhece que “ainda restam sequelas porque meu esposo ainda tem pesadelos e se levanta assustado, eu o admiro muito por sua valentia e pelo homem que é. Agora posso desfruta-lo cem por cento, temos muitos planos e sonhos. Graças a Deus que pode regressar são e salvo depois de 20 anos, minhas orações foram escutadas”.


PARA SABER MAIS:

A Carreira de um Soldado Regular Colombiano:
Os Soldados profissionais como William de Jesús Posada e Hugo León López se formaram na Escola de Soldados Profissionais do Exército Nacional.
Uma vez graduados começam a contar os 20 anos para sua inatividade assistida.
Sem dúvidas, dentro dessa instituição se da a oportunidade, nos casos de boas qualificações, de entrar na Escola de Suboficiais (no Brasil: Sargentos), onde os Soldados podem aspirar chegar até a graduação de Sargento Mayor (equivale aos Subtenentes e Suboficiais brasileiros). 
Se a carreira de um militar começa com um curso de oficial, ela lhe da a oportunidade de iniciar como Subtenente (Guarda-Marinha ou Aspirante, no Brasil) e terminar como General.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
COMENTO: por aqui, o tempo mínimo de permanência no serviço ativo, para passar à inatividade, é de 30 anos de serviço. A não ser nos casos de inaptidão por problemas de saúde surgidos em serviço. É claro que o diferencial colombiano é que são 20 anos sob a tensão de viver em combate durante os 20 anos. Parabéns aos Soldados colombianos que conseguiram sobreviver na luta contra os narco bandoleiros.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

¿Retrocede a Esquerda na América Latina?

por DIANA CAROLINA JIMÉNEZ
Em novembro passado, os argentinos elegeram Presidente um empresário "de direita" que enfrentou o candidato designado pela presidente Cristina Fernandez, e o Congresso no Brasil iniciou uma investigação para determinar se submete a julgamento político a Presidente Dilma Rousseff, cujos índices de aprovação nas pesquisas permanecem perto de 10 por cento.
No que constitui, talvez, a reviravolta mais importante, o eleitorado venezuelano, onde começou o giro à esquerda da região, entregou a vitoria à oposição, por uma margem esmagadora nas eleições legislativas, pela primeira vez desde que o "anti yanqui" Hugo Chavez ganhou a Presidência em 1988.
A reação se produz em meio a uma tormenta econômica que não se via há décadas. Todas as dinastias políticas estão pagando o custo de ter economias em quebra e uma corrupção desenfreada, e os analistas ressaltam que a maioria desses governos em mãos de esquerdistas assumiram quando a economia da China iniciava uma época de forte crescimento nos últimos 15 anos, demandando matérias primas da região.
Agora, que o colosso asiático enfrenta problemas, os preços do cobre, da soja e do petróleo caíram, arrastando as moedas e, com elas, as aspirações de milhões de famílias que ascenderam à classe média surfando na crista daquele "boom".
Ao mesmo tempo, as taxas de juros nos Estados Unidos estão aumentando pela primeira vez em sete anos, o que se soma à pressão sobre as entidades endividadas em dólares.
"No fundo, estamos vendo na América do Sul, de forma geral, um lembrete de que o pêndulo político se move" disse o Senador Antonio Navarro Wolff, ex dirigente da guerrilha esquerdista M-19. "Na última década parecia não mover-se porque a situação econômica era muito favorável".
Sem dúvidas, especialistas consideram que seria um erro dizer que a esquerda tenha perdido toda sua força. O movimento peronista, do qual surgiu Cristina Fernández, conserva a maioria no Senado argentino; o Partido dos Trabalhadores de Rousseff segue sendo a agrupação política mais poderosa do Brasil e os aliados de Maduro obtiveram 33% dos votos, apesar dos prognósticos de uma contração econômica que poderia chegar aos 10%.
Outros esquerdistas obstinados ainda pisam firme, como o equatoriano Rafael Correa, com um índice de aprovação de 41% apesar de sua economia dependente do petróleo se esforçar para não cair em recessão.
Uma possível explicação: em lugar do ressurgimento das direitas, poderá existir uma divisão entre pragmáticos e ideólogos, diz Chistopher Sabatini, um especialista na região e professor na Universidade de Colúmbia.
Até mesmo a Cuba socialista, que há décadas serve como pedra angular da esquerda latino americana, olha para o norte e se esforça para superar meio século de desconfianças da potência norte americana.
Os primeiros sinais de mudança apareceram na posse de Macri. Enquanto que uma amargada Cristina e Maduro brilharam por sua ausência, Correa e o boliviano Evo Morales compareceram. Morales, inclusive, ensaiou jogar futebol com Macri, ex presidente do popular clube Boca Júniors, horas depois de assistir um ato de despedida de Cristina e seus partidários.
Além de tudo, políticos conservadores partidários do livre mercado tem acolhido a tradição esquerdista dos programas sociais para combater a pobreza. Macri insistiu muitas vezes durante sua campanha que manteria uma rede social para os pobres. A coalizão opositora venezuelana, acusada pelo oficialismo de querer entregar os recursos nacionais ao Fundo Monetário Internacional, disse que uma de suas prioridades legislativas seria entregar títulos de propriedade às milhões de famílias a quem Chávez deu moradias gratuitas.
Para o futuro, a centro-direita promete diminuir tanto a hostilidade para com Washington com seus gestos grandiloquentes, quanto as relações com Irã, promovidas por Chávez e a Argentina. Deve concentrar-se em fortalecer as economias mediante controle fiscais e monetários, a luta contra a corrupção e a devolução da independência ao poder judicial e outras instituições.
"É evidente que a direita aprendeu as lições" disse Sabatini, diretor de Global Americans, um grupo promotor do livre mercado. "Enquanto muita gente segue acreditando na esquerda, a crise econômica é tão grave que muitos mais estão dispostos a apostar na mudança".

EM RESUMO
Em lugar do ressurgimento das direitas na América Latina, poderá ocorrer uma divisão entre pragmáticos e ideólogos, segundo analistas. Dizem que há flexibilidade de ambos os lados.

MACRI DERRUBOU O MODELO POPULISTA
Em apenas uma semana a frente do poder na Argentina, o conservador Mauricio Macri implementou uma série de medidas de alto impacto para dar o troco ao modelo populista vigente nos últimos 12 anos: uma aposta arriscada na qual põe em jogo seu capital político. Macri, de 56 anos, derrubou o modelo econômico de sua antecessora, Cristina Fernández, em que o Estado tinha o controle da economia mediante fortes regulamentações financeiras e comerciais e implementou, em questão de dias, uma política de livre mercado. O mandatário eliminou as restrições para a compra de dólares, conhecidas popularmente na Argentina como "el cepo" (arapuca) cambiário, vigente durante todo o segundo mandato de Cristina (2007 - 2015). 
Era uma das disposições mais esperadas pelos mercados. Também eliminou os impostos sobre exportações de vários grãos, como trigo e milho, e reduziu os da soja, uma das principais fontes de divisas e de financiamento dos inéditos planos sociais que o kirchnerismo destinou aos setores mais vulneráveis da população. Foram isentas, ainda, as vendas externas de produtos industriais.
Os direitos às exportações, principalmente, assim como as somas retidas pelo fisco na compra de dólares para poupança e em pagamentos de cartões em moeda estrangeira, abasteciam o Estado kirchnerista com boa parte dos recursos para a destinação universal por filho, que beneficia com uma média de 100 dólares ao mês a dois milhões de famílias sem emprego/renda.

CORRUPÇÃO E RECESSÃO PÕEM O PT EM APERTOS NO BRASIL
Uma economia que a cada dia naufraga mais e um escândalo de corrupção de proporções gigantescas, não só ameaçam derrubar a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, como também destruir o legado do governante Partido dos Trabalhadores e sua luta por liderar a esquerda latino americana.
Especialistas consultados concordam que o partido sofre o pior momento desde sua criação, principalmente por um escândalo de corrupção e subornos na estatal Petrobras, que coincidiu com a queda nos preços das matérias primas, cujas exportações haviam impulsionado o desenvolvimento do país nos últimos anos. A rede de corrupção se desenvolveu por mais de uma década e envolveu cerca de 60 políticos e as maiores das grandes empresas do setor petrolífero e da construção em momentos em que a economia sentia fortes quedas nos últimos três trimestres.
Segundo economistas entrevistados pelo Banco Central, o PIB se contrairá uns 3,6% em 2015. Tudo isto pode derrubar o trabalho de anos do PT - como é conhecido popularmente - que construiu sua liderança lentamente desde inícios dos anos 80 quando o período dos governos militares brasileiros se findava. Naquela época, o partido encontrou sua base política em sindicatos e movimentos sociais, e seu discurso, baseado no exercício ético da política, convenceu o eleitorado.
Também, durante anos, foi granjeando a simpatia das classes populares com seus programas sociais que tiraram milhões de brasileiros da pobreza e os inseriram na classe média.

VENEZUELA, EM UMA SEMANA CHAVE
O maior risco de turbulência, de longe, é apresentado na Venezuela.
Após sua vitória nas eleições legislativas, a oposição parece estar em condições de desafiar o presidente Nicolás Maduro, que se encontra em posição de crescente debilidade. Ao invés de permitir que seus inimigos compartilhem o custo político das reformas necessárias para frear a inflação galopante e a escassez de produtos básicos, Maduro até agora só tem prometido reforçar as políticas estatizantes que mergulharam o pais no pântano ao mesmo tempo em que ignora o que denomina um "Parlamento burguês". 
Na quinta-feira (31/12) a oposição venezuelana fez um chamado aos militares para que garantam o respeito ao resultado das eleições de 6 de dezembro, após confirmar seu desprezo pela decisão do Supremo Tribunal de Justiça que ordenou suspender de maneira "preventiva e imediata" a proclamação de três dos 112 deputados eleitos.
A Mesa da Unidade Democrática - MUD taxou de ridículas estas impugnações e seus 112 parlamentares eleitos, dois terços do Parlamento, assumiram seus respectivos cargos em 5 de janeiro, como estava previsto, junto aos 55 chavistas eleitos. 

EVO MORALES SERÁ JULGADO EM FEVEREIRO
O presidente da Bolívia, Evo Morales, se colocará em julgamento em fevereiro quando os bolivianos decidirão em referendo se permitirão que ele se apresente a outra reeleição, em um cenário adverso por apresentar os primeiros despontes de recessão e com o populismo latino americano em retrocesso. Os cidadãos do país andino foram convocados para uma consulta popular em 21 de fevereiro, um mês depois que Morales celebre dez anos ininterruptos no poder, que lhe parecem pouco, pois se ganha no referendo e nas eleições de 2019, governará até 2025, estabelecendo assim um recorde de permanência no antigo volátil Palácio Queimado.
Será a competição mais arriscada de Morales, já que não concorre contra a débil oposição, mas contra si mesmo. O mandatário deve demonstrar que sua popularidade saiu ilesa dos escândalos de corrupção que salpicaram seu Governo nos últimos meses; das acusações de autoritarismo por parte da oposição e da retirada de apoio de vários setores indígenas que antes foram seus aliados. Um dos estorvos mais graves que poderá influir no resultado do referendo é o do Fundo Indígena, que destinou milionárias ajudas para cerca de 200 projetos de desenvolvimento que nunca chegaram a ser executados.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano