segunda-feira, 3 de março de 2014

A Censura na Visão de Mino Carta

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A censura da imprensa durante os anos do regime de 1964 é vista como uma prática corrente nas redações dos grandes e pequenos meios de comunicação. Numa entrevista para o Canal da Imprensa, o jornalista Mino Carta fala sobre o assunto:

C. I.: O senhor afirma que jornais como O Globo, Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e a própria Folha de S.Paulo não foram censurados durante o regime militar. Isso contraria o que eles pregam. Houve ou não censura nestes jornais? 
M. C. – Não houve. O que houve foram alguns pequenos episódios em que eles, no começo da censura, foram alcançados como todo mundo por ordens que vinham pelo telefone e depois começaram a vir pelo telex. Eles foram alcançados também por essas ordens no começo da censura. Mas eu acredito que no caso da Folha, do Globo, nunca houve nada. O Jornal do Brasil teve algum pequeno problema, porém num caso específico. Não havia censura efetivamente. O Estadão teve censura num quadro especial. Ele era dos jornais brasileiros o que mais havia defendido e invocado o golpe de 1964. Mas a questão é que ele depois participou de uma briga interna do novo poder. E nessa briga quem realmente perdeu foi o pessoal da UDN (União Democrática Nacional), da velha UDN. O jornal acabou censurado e o Carlos Lacerda foi cassado. Mas era uma briga interna, uma intriga entre primos. 
C. I.: A censura caiu então sobre os jornais alternativos. O Jornal da República foi um deles? 
M. C. – Não. Quando surge o Jornal da República não havia mais censura. Ele surgiu até mesmo porque não havia mais censura. Era um jornal que se sentia à vontade para ser tentado. 
C. I.: Já que não houve censura, por que o jornal fechou em tão pouco tempo? 
M. C. – Fechou em pouco tempo porque faltou apoio, porque, embora lançado num momento politicamente oportuno e produzido por uma equipe muito boa, careceu de um projeto financeiro substancioso. Então, logo verificamos que, sem um respaldo financeiro, nós não poderíamos ir adiante. Acumulamos em quatro meses e vinte dias uma dívida monstruosa. Tivemos de recorrer a um banqueiro que tinha um sonho jornalístico também, Fernando Moreira Sales – ele próprio tomou a iniciativa de nos procurar. Basicamente, ele comprou a IstoÉ, que fazia parte do nosso grupo, cobrindo essa dívida muito grande contraída pelo jornal. 
C. I.: Essa falta de respaldo financeiro não pode ser considerada como censura? 
M. C. – Não. Não absolutamente. Eu suponho em primeiro lugar um volume de publicidade respeitável. E eu nunca encarei a publicidade como censura. Agora, quando eu falo em apoio financeiro, me refiro a gente que podia entender quais eram as intenções do jornal, as verdadeiras intenções, e compartilhar delas.

Recomendo vivamente a leitura da entrevista completa, que foi reproduzida pelo Observatório da Imprensa, com o título “Não Tenho Rabo Preso”.
COMENTO: os jornalistas sempre apontam para o período do governo militar acusando a existência da censura como impedimento ao desenvolvimento da livre imprensa, das artes (música, cinema, teatro, telenovelas, etc.). Esquecem que foi naquele período que surgiram e/ou fizeram sucesso Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Glauber Rocha, a "turma" do Pasquim (que faliu quando terminou a dita-mole, mas seus criadores - com exceção de Millor Fernandes - correram em busca de suas bolsas-anistia), e tantos outros "intelectuais" que hoje mostram seus dotes buscando uma boquinha junto ao Tesouro Nacional pois seu talento esfumou-se junto com o governo que criticavam e que lhes propiciou fama e dinheiro.
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