domingo, 23 de março de 2014

1964: Interpretações Parciais

por Enio Meneghetti (*)
ZH publicou no último domingo (16/3) artigo do jornalista Flávio Tavares, Para reviver 1964.
Como autor da biografia do então governador do RS, que foi participante obrigatório daqueles momentos, gostaria de contrapor algumas afirmações do artigo.
Fala-se muito na “participação americana”, mas nada refere-se sobre a participação cubana e soviética nos mesmos eventos.
Em A Ditadura Envergonhada, Elio Gaspari revela: “Em 1961, Fidel hospedara Francisco Julião do MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes. A Moscou, Julião pedira mil submetralhadoras. Em 1962 são descobertos campos de treinamento de guerrilha em Divinópolis, Goiás.
No final de 1962, na queda de um Boeing 707 da Varig nas cercanias de Lima, é encontrada a mala diplomática cubana. Continha detalhes sobre o plano revolucionário em andamento no Brasil e reclamações sobre “os gastos excessivos” do dinheiro cubano pela esquerda brasileira.
Em 13 de março de 1964, Jango anunciou seus decretos. O da reforma agrária – 53.700/64 – declarava de “interesse social” as áreas rurais em um raio de 10 quilômetros nas margens de todas as rodovias federais, ferrovias, açudes, barragens. O de “tabelamento de aluguéis”, em seu artigo quinto, trazia: “O Comissariado da Economia Popular listará em 90 dias todos os prédios e apartamentos desocupados com vistas à ‘desapropriação por utilidade social’.
Tudo por decretos, à revelia do Congresso, contrariando a Constituição vigente.
O governador do RS, Ildo Meneghetti procurou Jango. O encontro deu-se na Base Aérea de Canoas, na Páscoa de 1964. Meneghetti externou a Jango suas preocupações com os rumos de sua política. Apelou ao adversário que recuasse. O resultado dessa conversa foi a troca dos comandos militares no RS. O general Ladário Telles foi enviado para assumir o III Exército. Antes de embarcar, Ladário indagou ao presidente: “Que tratamento devo dispensar ao governador Ildo Meneghetti?”.
Tratamento duro. Faça-o sentir com quem está o poder – disse Jango.
Recentemente falecido, o jornalista e historiador Jacob Gorender, militante comunista, afirma em seu clássico Combate nas Trevas: “O período de 60 a 64 marca o auge da luta de classes no Brasil. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu pelo caráter contrarrevolucionário preventivo. Houve chance de vencer, mas foi perdida. O mais grave é que foi perdida de maneira desmoralizante”.
Constata-se uma recorrente tentativa de transformar os fatos ocorridos na luta de “bonzinhos” contra “malvados”, desprezando-se a realidade histórica.
(*) autor do livro 
Baile de Cobras – A Verdadeira História de Ildo Meneghetti
Fonte:   Zero Hora
COMENTO:  Flávio Tavares faz em seu texto - que pode ser lido clicando neste enlace - uma espécie de merchandising de seu livro 1964 - O Golpe, insistindo ter composto uma obra "imparcial". Mas não se furta, no artigo, de justificar-se: não poderia ser neutro. Não há neutralidade frente ao crime. Nem de retomar a velha cantilena de que a Contrarrevolução de 1964 foi uma iniciativa dos EUA, por meio da CIA, omitindo o apoio de Cuba e da falida URSS aos "revolucionários" que bradavam já estar no governo, faltando só assumir o poder (Luis Carlos Prestes).

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