terça-feira, 20 de agosto de 2013

Patriotada ou Viadagem Solidária?

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Curtindo um bom passeio e um afastamento da rede mundial por dificuldades de conexão - acreditem, apesar do ufanismo de dona Dilma e do marido de dona Gleise, aliados à inoperância do ministério do Turismo, há lugares "neçapaíz" em que internet não é coisa para quem está fora de casa - tive que me esforçar e buscar contato com o mundo para tratar de um assunto que vem "dominando" o noticiário. 
Pelo terceiro ou quarto dia consecutivo a "grande imprensa" - jornalões, e redes Globo, Band e Record de televisão - continua dando importância desmedida à retenção de um "estudante brasileiro" pelas autoridades policiais britânicas. Efetivamente, abusos de autoridade praticados por policiais não são bom sinal de respeito aos direitos humanos mas neste caso há um componente que me escapa a compreensão.
O fato vem sendo destacado, também, por jornalistas internacionais que aproveitam para não deixar que o caso da "espionagem mundial" atribuída a Barack Obama saia das manchetes. Até aí, nada de anormal. Imprensa vive de audiência e o assunto chama a atenção mundialmente.
Como escrevi, abusos de autoridade não devem ser tolerados como rotineiros, por outro lado, detenções para averiguações nem sempre devem ser consideradas abuso. Isso depende da motivação que conduz ao fato.
No caso em questão, o pano de fundo são as denúncias que um traidor do serviço secreto yankee fez sobre os métodos usados por seu país para obter os dados que julga necessários para estabelecer a segurança de sua sociedade.
Um dos fundamentos da teoria do Estado apregoa que "os cidadãos abrem mão de parte de sua liberdade em troca da segurança proporcionada pelo Estado". Concordemos ou não com esse axioma, a verdade é que o Estado, para bem desempenhar seu papel, tem que ter alguma ascendência sobre a individualidade de seus cidadãos. Não adianta achar ruim! A sobrevivência do coletivo tem que ser superior aos interesses individuais.
Aí temos um grande problema que aflige o serviço de Inteligência de qualquer Nação: como bem executar sua atividade sem ultrapassar os limites legais? Somente os muito ingênuos podem acreditar que um país com pretensões mínimas de sobreviver no conjunto internacional de nações abre mão das atividades ilegais executadas por seu serviço de Inteligência. O Brasil está repleto desses ingênuos, inclusive fazendo parte de sua Agência de Inteligência, que mais aparenta ser um enclave burocrático destinado a catar na imprensa e na internet - fontes obviamente nem sempre confiáveis - os dados que necessita.
Os Estados Unidos, ainda a maior potência econômica e militar deste planeta, obviamente utiliza da melhor forma que lhe parece possível os seus serviços de Inteligência ou, se quiserem, a espionagem. As demais grandes potências, da mesma forma possuem e usam serviços de espionagem. E nessa atividade, há somente um crime: ser descoberto.
Daí, outra grande dicotomia. O espião bem sucedido, apesar de não ter seu sucesso divulgado oficialmente, é considerado um herói nacional em seu país, seja ele qual for. Temos aí exemplos que nos vem desde os tempos bíblicos, passando por tempos de guerra aberta e chegando aos nossos dias em que a maior guerra se dá no aspecto econômico. Não há outra saída. Ou se progride ou se é absorvido. Em outras palavras: ou come ou é comido! 
E a função da espionagem se dá, prioritariamente em duas vias paralelas: buscar dados que conduzam a informações sobre novidades que propiciem oportunidades de crescimento; e proteção de dados e informações que proporcionem vantagens a concorrentes, nem sempre inimigos em termos de conflito violento, mas sempre adversários em termos politico-econômicos.
Mas não podemos perdoar o espião que falha, esteja ele do nosso lado ou do lado adversário. E ao profissional dessa atividade que se transfere para para o lado adversário não há outro adjetivo: é um traidor. Ele trai sua profissão, seus colegas, sua atividade e, em última instância, seu país ao colocar a imagem deste em cheque perante as demais nações.
Aí temos o problema do norteamericano Snowden que decidiu "anunciar ao mundo" o que faz seu país em termos de espionagem.
Como se todo mundo já não soubesse. Na falta de outro assunto que sobrepuje o interesse, a imprensa e os governos de muitos países aproveitam para colocar os EUA contra as cordas. Até mesmo o governo brasileiro, incapaz de definir sequer um programa que defina o que lhe interessa em termos de Inteligência, foi aos holofotes bradando contra a suposta invasão de seus segredos.
Pura palhaçada mas que se liga à importância dada ao "namorado brasileiro" de um americano com ligações a Snowden! Quem garantiria que o tal brasileiro não havia viajado com a intenção de recolher novos dados a serem divulgados? Pode-se criticar que tenham tentado conferir a respeito dessa dúvida ser valida ou não? Havendo essa possibilidade, deveriam os norteamericanos e seus aliados britânicos deixar de verificar sua veracidade em nome dos "direitos individuais"? Ou deveriam se portar como os inocentes idiotas (não necessariamente nessa ordem) brasileiros que se recusam a importunar os integrantes das inúmeras ONGs que nos extraem riquezas em forma de conhecimento, para não ofender os outros países? Pura hipocrisia. Mas como escrevi, o crime é ser apanhado com a mão na cambuca. O estudante brasileiro escapou, deixando a polícia britânica com o ônus de explicar o que não tem explicação. Caso que poderia ser encerrado com um pedido formal de desculpas! Mas não! A honra nacional foi conspurcada e devemos todos bradar por vingança - e, quem sabe uma indenizaçãozinha pecuniária, pois ninguém é de ferro!
Mas o que me parece muito fora do contexto é a atenção que me parece desproporcional dada pelos jornalistas brasileiros. Os mesmos meios que não conseguiram noticiar com oportunidade a invasão e inspeção de um avião militar brasileiro na Bolívia - o caso só veio à tona dois anos depois - e ficaram suficientemente satisfeitos com uma nota medíocre do presidente cocaleiro qualificam o caso do detido em Londres como uma agressão diplomática. Esses mesmos veículos de informação se omitem ou pouca importância dão aos brasileiros - dezenas deles - que frequentemente são retidos e detidos em aeroportos portugueses e espanhóis, às vezes por períodos superiores a 24 horas, sem direito a advogados, apoio de representantes diplomáticos ou mesmo uma alimentação minimamente razoável - quando não são privados até de medicação regular de que necessitem. Também é raro se ver alguma nota ou comentário, ou novidades, ou pressão mesmo, a respeito do político boliviano em situação carcerária na embaixada brasileira em La Paz.
Mas a retenção do brasileiro "namorado" de um jornalista norteamericano tem tido boa divulgação, sendo elevada à condição de "agressão à liberdade de imprensa", com direito a foto de capa na Folha mostrando o emocionado reencontro do casal.
Mas, o ápice do caso me pareceu a emotiva participação do ministro-auxiliar de relações exteriores brasileiro. O tal de Patriota, cujo patriotismo aparentemente se resume ao sobrenome, correu célere para os holofotes em defesa da honra brasileira, parecendo até que ia declarar guerra aos britânicos, numa repetição cômica da fanfarronada argentina por ocasião da Guerra das Malvinas.
O que motivaria essa pantomima toda?
Uma reação de indignação contra todos os maltratos feitos contra brasileiros, em todas as épocas? Uma tentativa a mais de desviar as atenções dos acontecimentos nacionais que teimam em desnudar a incapacidade administrativa do desgoverno? Uma manifestação temporona de "anglofobia"? Ou somente uma inocente manifestação de solidariedade "homoafetiva" dos nossos editores noticiosos e diplomatas para com o brasileiro e seu par yankee?  

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