domingo, 23 de setembro de 2012

Enquanto a Bela Judite Decapitava Holofernes ...

por Janer Cristaldo
Trecheava ontem Mulheres na Bíblia, de John Baldock, uma espécie de dicionário da presença feminina no livro, quando caí no verbete Judite, uma das heroínas de Israel. Seu livro consta de várias bíblias cristãs – da católica inclusive – mas não está na Tanak, a bíblia judaica, apesar de ser um relato muito bem construído que mostra o pequeno Israel vencendo grandes inimigos. A história remete imediatamente à luta em que Davi matou Golias. Uma bela viúva dirige-se ao acampamento do exército inimigo, seduz o general Holofernes em um banquete e acaba cortando sua cabeça.
Por volta de meia-noite, costumo sair de casa para tomar um café incrementado em um Frans que fica a uns 200 metros de onde moro. Higienópolis é um bairro judeu, com seguranças em quase todos os prédios, o que o torna bastante tranqüilo. Saio sempre de sangue doce. Mesmo assim, nunca se sabe. Deixo em casa cartão e documentos, levando no bolso alguns trocados. Ontem, decidi reler o livro de Judite. Peguei uma de minhas bíblias católicas e fui ao Frans. Além do café incrementado, fui adotado por uma garçonete, que me faz cafunés e me chama de gatinho. O que torna duplamente agradável meu lanche na madrugada.
Davi matou Golias, disse. Davi? Pode ser. Mas em minhas leituras vadias do Livro, encontrei uma outra hipótese. Em II Samuel, 21:19, lemos: “Houve mais outra peleja contra os filisteus em Gobe; e Elcanan, filho de Jair, o belemita, matou Golias, o giteu, de cuja lança a haste era como órgão de tecelão”. Como intérprete é o que não falta para explicar os cochilos do hagiógrafo, há quem diga que este Golias era filho do outro Golias. Pode ser. Mas em Samuel não há nenhuma alusão ao fato. Volto à Judite. Não à mulher de Esaú, que encontramos no Gênesis. Mas a viúva que desmoralizou o exército inimigo de Israel.
O livro pouco se preocupa com história e geografia. Para início de conversa, faz de Nabuconor rei dos assírios, quando este o foi da Babilônia. Pretende ser um relato para encorajar Israel a resistir e lutar. Teria sido escrita na Palestina, provavelmente em meados do séc. II a.C., durante a resistência dos Macabeus ou logo após. Segundo uma versão comunista da Bíblia, que tenho em minha biblioteca - a dita Edição Pastoral, publicada pelas Edições Paulinas – “o importante é que o livro apresenta a situação difícil do povo, ameaçado por uma grande potência. Por trás de Nabucodonosor e seu império, podemos entrever a figura de qualquer dominador com seu sistema de opressão”. Pelo jargão, os tradutores devem estar pensando em Cuba e Estados Unidos. 
A história é conhecida pelos leitores da Bíblia e inundou a pintura, de Caravaggio a Goya e Klimt. Judite é uma viúva exemplar que vive em Betúlia, rica e virtuosa, piedosa e bela, estimada por todos. Saindo de sua reserva, ela reprova vivamente a falta de confiança em Deus de seus compatriotas, e principalmente seus chefes, mas anuncia que por sua mão o Senhor virá em ajuda de seu povo, antes do prazo de cinco dias.
Nabucodonosor encarrega o general Holofernes de exterminar todos os opositores à sua autoridade. Ao final de suas preces, Judite se enfeita como para uma festa e vai, esplendorosa, em companhia de sua serva, até o acampamento inimigo. Sua serva leva um cesto com frutas e bebidas, que tem importante função na trama. Judite promete a Holofernes o segredo de como derrotar Israel. Ganha a confiança do general. Pede a este o direito de não beber nem comer, entre seus hóspedes pagãos, senão as suas próprias provisões, conforme as exigências alimentares da lei judaica. E de se retirar do acampamento cada noite, até o amanhecer do dia, para orar “ao Deus que ela serve noite e dia”.
No quarto dia – lemos na Bíblia - Holofernes ofereceu um banquete somente para o seu pessoal de serviço, sem convidar nenhum oficial. Disse a Bagoas, seu mordomo: «Vá e veja se você consegue convencer essa mulher hebréia, que está a seu cuidado, para que venha comer e beber conosco. Seria uma vergonha não aproveitar a ocasião de ter relações com essa mulher. Se eu não a conquistar, vão caçoar de mim». Bagoas saiu da presença de Holofernes, foi até Judite, e lhe disse: «Que esta bela jovem não tenha medo de se apresentar ao meu senhor como hóspede de honra. Você beberá conosco, se alegrará e passará o dia como uma das mulheres assírias, que vivem no palácio de Nabucodonosor». Judite respondeu: «Quem sou eu para contrariar o meu senhor? Farei tudo o que lhe agradar, e isto será para mim uma lembrança agradável até o dia de minha morte».
Então Judite se levantou e se enfeitou com suas roupas e jóias. Sua serva foi na frente e estendeu no chão, diante de Holofernes, as peles que Bagoas lhe tinha dado, para que se reclinasse enquanto comia. Judite entrou e se acomodou. Ao vê-la, Holofernes ficou arrebatado, e a paixão o agitou com o desejo violento de se unir a ela. De fato, desde a primeira vez que a viu, ele espreitava uma ocasião para seduzi-la. E Holofernes disse a Judite: «Vamos, beba e se alegre conosco». Judite respondeu: «Claro que vou beber, meu senhor. Hoje é o dia mais feliz de toda a minha vida». E Judite comeu e bebeu diante de Holofernes, servindo-se do que a sua serva tinha preparado para ela. Holofernes, entusiasmado com ela, bebeu muitíssimo vinho, como nunca havia feito antes, em toda a vida.
O desfecho, todos sabemos. Judite se aproxima da coluna da cama, que ficava junto à cabeça de Holofernes, e pega sua espada. Chega perto da cama, agarra a cabeleira do general bêbado e pede: «Dá-me força agora, Senhor Deus de Israel». E com toda a força, deu dois golpes no pescoço de Holofernes e lhe cortou a cabeça. Rolou o corpo do leito e tirou o mosquiteiro das colunas. Depois saiu, entregou a cabeça de Holofernes para a serva, que a colocou na sacola de alimentos.
Estava eu em plena decapitação, quando um mulatinho magro e de rosto chupado, de uns 25 anos, encostou-se em minha mesa e me disse algo em voz baixa. Não entendi. Pensei que pedisse esmola, mas não tinha jeito de mendigo. Como eu não o entendia, mostrou-me argumento mais convincente: levantou a blusa e mostrou-me um 38 cano curto. Queria meu celular.
O rapaz não me conhecia. Pedir-me celular à meia-noite é como pedir honestidade a um petista à luz do dia. Não tenho. (Me refiro ao celular, é claro). Em verdade, tenho um, mas só o uso aos sábados e domingos. Não tenho, cara! – respondi. Tinha 50 reais no bolso. Mas ele nada mais pediu e nada mais eu dei. Ao que tudo indica, gozo de fé pública junto aos assaltantes. Ele deixou-me de lado e, com a nonchalance de um garçom servindo clientes, foi fazer sua coleta nas demais mesas da terrasse. Um outro parceiro agia dentro do bar.
Tranqüilos, saíram a pé pela rua, com a boa consciência dos justos. Houve um momento de estupor no café, depois todos retomaram a conversação, um pouco divertidos com o acontecido.
O que me lembrou Os Monstros, filme italiano dos anos 60, em vinte episódios. Em um deles, durante um assalto a um banco, os clientes são obrigados a deitar no chão. Vitorio Gassman aproveita o momento para explicar ao cliente deitado a seu lado os afrescos que vê no teto.
Que fazer? Indefeso, eu não tinha como reagir. Continuei minha leitura. Judite e sua serva saíram juntas para rezar. Atravessaram o acampamento, rodearam o vale, subiram a encosta de Betúlia e chegaram à porta da cidade. 
E eu fui para casa.
Fonte:  Janer Cristaldo

Nenhum comentário: