segunda-feira, 6 de agosto de 2012

É a política, animal (*)

(*) versão gaudéria adaptada da expressão “É a economia, estúpido”, de James Carville
por Glauco Fonseca
Enquanto Carminha e Nina aumentam os decibéis e a grossura na novela das nove, minutos antes, no Jornal Nacional, observamos que a educação vai à breca, que a saúde já foi e que as telecomunicações só não foram ainda porque o bom senso empresarial, desta vez pelo menos, falou mais alto e na hora certa. 
Preferimos futebol e o rebolado da Isis Valverde a tomar pé da greve de sessenta dias de professores universitários federais, optamos sempre pela reprise do joguinho aquele, ao invés de tentarmos entender porque os telefones celulares não funcionam e, sempre que possível, preferimos A Fazenda do que sabermos o que realmente acontece nas emergências hospitalares país afora, que era um problema do SUS e já se transformou num problema social de proporções arrepiantes.
Quando o filho do Lula ganhou dez milhões de presente da Telemar, para montar um canal de TV que já saiu do ar há tempos, a gente não fez nada. A Anatel, que deveria fiscalizar a implantação de metas de qualidade e universalização, foi tão aparelhada e tão desautorizada que até a Erenice Guerra mandava mais do que ela, lembram? Não lembram? Claro que não. Afinal, é a política, não é mesmo, estúpido? 
A gente só começa a se lembrar das coisas quando o aparelho da gente fica sem sinal, quando se tenta reclamar e os “contact centers” dão uma banana pra gente ou quando a conta chega errada e sequer o Bispo pode aceitar nossa queixa. A Anatel e a eminente desordem no sistema brasileiro de telecomunicações tem nome: Política. Política ruim, nojenta, suja, mas política.
Ainda que a gente não espere que aconteça, vai ter de entrar num hospital para alguma coisa. Munidos de nossas carteirinhas do caríssimo plano de saúde, ou de um robusto e valente talão de cheques, ainda assim vamos ouvir uma pessoa sofrida tendo que nos informar que “não há leitos nem nos corredores, com ou sem convênio, com ou sem dinheiro”. 
Nesta situação, lembrar-nos-emos do Tufão, o traído, o corno, o idiota. Somos como ele, que habitam portarias de hospitais e, mesmo que saibamos há tempos que a saúde no Brasil é caótica, preferimos o noticiário esportivo ao de política. Pois é a política, seu animal, que regula tudo isto. Agora é tarde e para arrumar toda esta zorra vai levar dezenas de anos e muita gente morrendo, seja com carteirinha do SUS na mão, seja com punhados de dólares.
E a greve dos professores universitários inviabiliza a vida e os projetos de milhares de estudantes. Há dois meses! O governo terá de arrumar 4,2 bilhões de reais para agradar a turma de grevistas e isto sairá do nosso bolso sem que signifique uma hora a mais de aula, um segundo a mais de qualidade no ensino, um dia sequer de avanço na estrutura educacional superior do país. A greve, promovida por lideranças ligadas ao PT, à CUT e aos sindicatos visceralmente ligados ao governo federal, meteu a faca no peito deste e levou a melhor. O país observa atônito que manda mesmo quem tem os bilhões que foram repassados de nossos bolsos para organismos cuja real atuação está sempre ligada a questões de interesse sindical ou específico, e jamais aos interesses maiores, da sociedade brasileira.
Isto tudo, seu estúpido espectador de novelas, de Big Brother e de joguinho de terceira divisão, é a política!
Saber de política, entender de política, estar a par do que acontece na política também é...política! Quem esfriou a Anatel para ganhar canal de TV para o seu “Ronaldinho”, sabe tudo de política. Aqueles que propalam que a “saúde no Brasil está próxima da perfeição” entende tudo de política. E aqueles que dizem que a qualidade da educação no país melhorou, são experts em política.
Nós, que não queremos saber de política, é bom não precisarmos de hospital, tomara que não precisemos de telefone nem de profissionais qualificados para nos prestarem serviços.
Afinal, somos todos Tufões, certo?

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