quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Insatisfação dos Militares

Desde o final do ano de 2011 que os militares têm expectativa de receber um reajuste salarial, afinal, são anos de defasagem, e pior do que receber baixos salários é ter os salários reduzidos mensalmente. 
Somente em 2011, quando a inflação foi pouco maior do que 6%, os militares graduados perderam em média 200 reais mensais em seu pagamento, o equivalente a dez quilos de carne de segunda. Ou seja, tiveram que cortar de seus orçamentos, além de outras coisas, itens necessários a alimentação de sua família.
Em 2010 as perdas foram similares. A situação é difícil e desesperançosa, militares não podem ter outras profissões, são profissionais de dedicação exclusiva e integral ao seu país. Podem ser convocados a qualquer momento e tem de se submeter às ordens mais diversas. Nos últimos meses temos visto militares atuar como lixeiros no Rio, agentes de saúde, policiais, fiscais sanitários, médicos comunitários, construtores de pistas de aeroportos, operários em manutenção de estradas, mata-mosquitos etc.
Militares confiam (confiavam?) em seus chefes, aprendem isso desde o seu ingresso, ainda muito jovens, nas academias militares. No mês de maio o General Enzo, comandante do Exército, general com dezenas de condecorações e altamente capacitado para guiar seus comandados, disse em discurso oficial o seguinte: Confiem que as manifestações de entendimento das nossas urgências serão traduzidas em atos concretos... Confiem na valorização da carreira que escolheram por vocação...
O Discurso reacendeu as esperanças da família militar, soldados, esposas e filhos passaram a vislumbrar alguma coisa melhor no horizonte. Talvez pudessem ainda em 2012 quitar as prestações atrasadas da escola, ou voltar a comprar iogurte, ou quem sabe, ter condições para pagar um cursinho pré-vestibular. Porém, os meses se passaram e nada aconteceu, os funcionários civis receberam seus reajustes salariais, policiais que fizeram greve também receberam seus reajustes, policiais do Rio tiveram permissão de executar serviços extra-quartel. Contudo, para os militares e familiares, as palavras do General Enzo cada vez mais se invertiam, de palavras de esperança e alento passaram a soar como um tipo de ironia.
Por tudo isso, o chefe militar precisa liderar esse soldado de vida espartana, atento às suas necessidades, preservando-lhe o entusiasmo...
Por trás desse homem há uma família... Atenta às suas necessidades...
Os militares estão cada vez mais tomando a iniciativa de se manifestar publicamente, tem ocorrido fatos antes inusitados e cada vez mais significativos. 
Essa semana vimos na TV um sargento da aeronáutica se manifestar publicamente sobre salários quando cobrado acerca da fluência em idioma estrangeiro.
Soubemos ainda pelo jornal O Dia que militares reclamaram da função de maleiros que lhes foi dada na Rio +20, soubemos que os telhados das casas da vila militar no Rio foram lavados, depois de muitos anos sujas, somente para “melhorar a paisagem” para os visitantes estrangeiros. Mais de 300.000 militares e familiares assinaram um abaixo assinado virtual no Senado, reclamando sobre os salários baixos.
Os militares, principalmente os subalternos, cada vez mais tem manifestado publicamente sua insatisfação, mas isso não pode ser entendido como manifestações isoladas. A mente militar normalmente funciona de forma corporativa. Para que ocorram tantos fatos isolados é necessário que haja uma “atmosfera” de insatisfação. Até um animal, quando encurralado, reage. 
Pesquisas mostram (Pesquisas de Sociedade Militar) que mais de 45% dos militares da ATIVA devem no cheque especial e/ou empréstimo consignado mais de 50% de seus pagamentos e que cerca de 73% dos militares da reserva tem como principal dívida um empréstimo para quitar dívidas anteriores acumuladas por conta da defasagem salarial. 
Isso é grave.

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