sábado, 12 de maio de 2012

Contribuinte Paga Tradução de Chico Buarque na Coréia

por Janer Cristaldo
Está causando espécie entre alguns jornalistas, que parece terem nascido ontem, a notícia de que Chico Buarque vai receber financiamento da Biblioteca Nacional para a tradução de seu livro Leite Derramado para o coreano. Mais uma ajuda financeira indireta do Ministério da Cultura, comandado pela mana Ana de Hollanda. Chico quer empurrar sua “obra” ao mercado asiático.
Como se isto fosse novidade. Há mais de década venho denunciando a indústria estatal do livro, que chamei de indústria textil – assim mesmo, sem acento. Ou seja, a indústria do texto. Aquela mesma indústria que empurra goela abaixo para a juventude as produções intelectuais dos amigos do rei. Como o rei é de esquerda, leia-se as produções intelectuais das viúvas do Kremlin. Chico Buarque é apenas um dos queridinhos da corte. Há muitos outros mamando – e há muito tempo – nas tetas do Estado.
Em outubro de 1997 – há quinze anos, portanto – eu já denunciava esta farra obscena com o dinheiro do contribuinte, nas Jornadas Literárias de Passo Fundo. Em comunicado intitulado justamente de “A Indústria Textil”, dediquei um item aos amigos do rei.
Os amigos do rei — Em junho passado, um quarteto de escritores brasileiros — Rubem Fonseca, Patrícia Mello, João Gilberto Noll e Chico Buarque — desembarcaram em Londres, onde fizeram leituras públicas de suas obras e lançaram livros não só na capital britânica, como também na Escócia e no País de Gales. Em um primeiro momento, poderíamos pensar: que maravilha, o Reino Unido se interessa por nossa literatura. Nada disso. É o Ministério da Cultura brasileiro que promove tais turismos e financia as traduções dos autores brasileiros. Vejamos estas manchetes, todas da Folha de São Paulo:
BRASILEIROS LANÇAM LIVROS NA GRÃ-BRETANHA
Autores promovem suas obras dentro de projeto patrocinado pelo Ministério da Cultura
Segundo Eric Nepomuceno, secretário de Intercâmbio e Projetos Especiais do Ministério da Cultura, “a essa ação do Reino Unido devem ser somadas outras, já em andamento, que compõem o programa de apoio à difusão de nossa literatura no exterior, elaborado pelo Ministério da Cultura. Este programa já tem comprometido o lançamento de pelo menos 42 títulos de literatura contemporânea até 1998 em cinco países, além do programa do escritor-residente em cinco universidades norte-americanas e mesas-redondas em vários países. Acho que é justo solicitar menção a essas iniciativas. Afinal, tudo isto está sendo pago por fundos públicos, geridos por este ministério, e creio que é nosso dever informar devidamente o uso dado a esses recursos”. 
Ou seja: quem paga o turismo destes escritores, todos amigos do poder, sejam vivos ou mortos, é o contribuinte. Nesta brincadeira, apenas para a tradução dos livros, foram gastos US$ 35 mil, financiados pelo Ministério da Cultura. O governo brasileiro, isto é, o contribuinte brasileiro, também contribui com parte dos custos de viagem. Ou seja, este país cheio de mendigos atirados nas ruas de suas capitais se dá ao luxo de usar dinheiro público para que alguns amigos do rei — ou, dizendo melhor, amigos de Francisco Weffort, o atual ministro da Cultura — editem suas obras na Europa.
Mas será que este contribuinte foi consultado na hora de financiar edições e mordomias a estes escritores que nem conhece? A propósito, quem é Patrícia Mello? Alguém conhece quais títulos de vulto esta senhora escreveu para julgar-se capaz de representar a literatura brasileira na Europa?
Foi um deus-nos-acuda. Tania Rösling, a pró-reitora da Universidade de Passo Fundo e organizadora das jornadas, que me havia convidado ao evento, ergueu-se em seus tamancos e, da platéia, brindou-me com um solene “filho-da-puta! O coordenador do debate quis cortar-me a palavra, alegando que eu estava indo além do tempo que me fora concedido. Os universitários que me ouviam reagiram e exigiram que me permitissem continuar falando. O melhor veio depois.
Quando desci da tribuna, os alunos cercaram para abraçar-me. Quanto aos professores, que me haviam gentilmente recepcionado, se afastavam de mim como se eu estivesse leproso. Estávamos convidados para um churrasco no CTG local após os debates. Aceitei. Ao entrar no ônibus que me levaria até lá, dei-me conta de que cometera uma solene mancada. Não teria ninguém com quem sentar. Mas já havia embarcado. Fui salvo pelo gongo. Ao entrar no galpão, uma figura sorridente veio a meu encontro e saudou-me com alegria:
- Janer, seu subversivo, ainda não estás na cadeia?
Não, até então não haviam conseguido pegar-me. Era o prefeito de Passo Fundo, que fora meu companheiro de política estudantil em Santa Maria. O gelo se desfez e acabei bebendo e comendo sem maiores constrangimentos.
Ainda há pouco, Chico Buarque dizia ter descoberto que havia pessoas que não gostavam dele. É o milagre da Internet. Na rede, não há censura. Naqueles dias, era crime de lesa-literatura dizer qualquer coisa contra Chico Buarque. Tanto que tentaram censurar-me durante minha comunicação. Jornal algum aceitaria qualquer denúncia das relações nada éticas do menestrel com o poder. Mas o problema não é gostar ou não gostar dele. O fato é que Chico e seus cúmplices participam de uma corrupção que até hoje os jornais não ousam chamar de corrupção.
Em julho de 2009, a Fundação Biblioteca Nacional divulgava uma lista de bolsas de literatura, abrangendo pesquisa literária, conclusão de obras, co-edições e traduções. A seleção daquele ano, na área de tradução, deu bolsas de US$ 3 mil (R$ 6 mil) para a tradução de obras de autores brasileiros no Exterior. A maior parte dos autores são vivos. O Filho Eterno, do autor curitibano Cristóvão Tezza, foi premiado com uma publicação na Austrália, pela Scribe Publications. O Anjo do Adeus, de Ignácio de Loyola Brandão, nos Estados Unidos, pela Dalkey Archive Press. Escrita em contra-ponto: Ensaios Literários, de João Almino, na Argentina, pela Leviatan.
Mais ainda: o ensaísta e então curador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), José Roberto Teixeira Coelho, teve sua obra Dicionário crítico de política recomendada para publicação na Espanha, pela editora Gedisa. A Croácia foi contemplada com Laços de Família, de Clarice Lispector. Outros contemplados foram O Enigma de Qaf, de Alberto Mussa, que seria publicado na França; uma coletânea de textos de Sérgio Sant’Anna, que sairia na República Checa; e a obra Sem Dizer Adeus, de Heloneida Studart, em Israel.
Quer dizer: quando o normal no mercado livreiro é a editora do país estrangeiro pagar o tradutor, este magnífico país nosso se antecipa: nós pagamos a tradução. Mais ainda: nós escolhemos os escritores a serem traduzidos. Isso de oferta e procura é lei obsoleta do antigo capitalismo, que precisa ser revogada. Se nós já empurramos goela abaixo nossos campeões a nossos jovens, não nos custa internacionalizar este goela abaixo. O contribuinte brasileiro é dócil, não vai chiar se tiver de subsidiar a tradução de nossos escritores comportadinhos – aqueles que não criticam o PT nem o governo – em países ricos como os vossos. Recebam, senhores do Primeiro Mundo, esta modesta cortesia do Terceiro.
Se a maracutaia terminasse aqui, não seria cousa de espantar. Mas vai mais longe. Segundo o Estadão, oito autores com obras em fase de conclusão foram selecionados: Afonso Cláudio Machado do Carmo, Alexandre Jorge Marinho Ribeiro, Beatriz Antunes Onofre, Jorge Alan Pinheiro Guimarães, Manoel José de Miranda Neto, Priscila Costa Lopes, Rafael Mófreita Saldanha e Ronaldo Eduardo Ferrito Mendes.
Ou seja, os insígnes beletristas sequer haviam concluído suas obras e já tinham subsídios para serem traduzidos no exterior. O escritor ainda nem existe, mas já tem tradução garantida. O contribuinte brasileiro, que já paga turismo em Paris para senadores, putas em Miami para deputados, silicone para travestis, é chamado agora a pagar traduções de prostitutas literárias, que não se pejam em escorchar quem paga honestamente seus impostos, desde que seus egos sejam afagados no Exterior.
Financiamento estatal de livros é velha prática dos estados comunistas. Bolchevique da gema, Chico jamais declinaria de tais mimos. Se os coreanos não se interessarem por seus livros, a embaixada brasileira sempre pode comprar alguns milhares de exemplares e distribuí-los pelas bibliotecas do país. 
Afinal, quem paga é você.
Fonte:  Janer Cristaldo

Um comentário:

toninho disse...

Olha, realmente ainda não vi tudo nesse Brasil! Nunca me passou pela cabeça que isso podia estar acontecendo. Que vergonha, não de ser brasileiro, mas de ter que conviver com esses que se aproveitam de nosso dinheiro e fazer turismo. Não sei nem quero saber que "livros", ou melhor o que dizem esses livros.
Um dia isso tem que acabar antes que acabem com o nosso Brasil.