sábado, 10 de dezembro de 2011

Um Dia é do Caçador, Outro da Caça


  
Fernando Pimentel, militante da luta armada,
atual ministro do Desenvolvimento
A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), do Rio Grande do Sul, desejava realizar uma ação que lhe destacasse junto à esquerda armada e lhe desse prestígio perante seu Comando Nacional (CN). Era necessário, para isso, uma ação de impacto nacional e internacional.  A experiência com o embaixador americano servia como exemplo. Esperavam que um cônsul fosse um alvo mais fácil que um embaixador e deduziram que a ação seria menos arriscada.
O alvo escolhido foi o cônsul dos Estados Unidos em Porto Alegre, Curtis Carly Cutter.
Imediatamente, em fevereiro de 1970, iniciaram cuidadosos levantamentos. Atuariam “em frente” com Gregório Mendonça (Fumaça), do Movimento Revolucionário  26 de Março - MR-26. Não poderia haver erros.

Logo, descobriram tudo sobre o cônsul: onde morava, seus horários de entrada e saída de casa e do trabalho, locais aonde ia com mais freqüência e, principalmente, que  usava, durante a semana, em seus deslocamentos um carro de cobertura, com dois agentes lhe dando segurança. Portanto, era preciso planejar a ação para um final de semana, quando, tranqüilamente, circulava sem cobertura.
O bem-sucedido seqüestro do cônsul do Japão reforçava a certeza do sucesso da ação. Confiantes, em março, Carlos Roberto Serrasol (Breno) recebeu a incumbência de alugar a casa localizada na Avenida Alegrete, 636, bairro Petrópolis, para ser o cativeiro do cônsul. Foi solicitado ao Comando Nacional (CN), já que nesse tipo de ação o tempo é precioso, a redação antecipada do comunicado a ser enviado às autoridades, após o seqüestro.
Juarez Guimarães de Brito - COLINA, VAR Palmares e finalmente da VPR -, do Comando Nacional, no Rio de Janeiro, atendeu prontamente, incumbindo Celso Lungaretti (Lourenço), do Setor de Inteligência da VPR, de redigir o documento.
No comunicado, transcrito no final, como exigência para libertar o cônsul  vivo, as autoridades deveriam libertar 50 presos, que seguiriam para a Argélia.
O comunicado também previa que a não aceitação das exigências levaria os seqüestradores à execução de Curtis Carly Cutter. O documento era assinado pelo Comando Carlos Marighella.
A ação foi marcada para 21 de março, um sábado. Assim foi feito. Já com um carro, roubado só para o seqüestro, partiram para a ação. Tudo, no entanto, fracassou, por erro no tão minucioso planejamento. A ação foi remarcada para duas semanas depois. Afinal, era preciso rever todos os detalhes.
No dia 4 de abril de 1970, partiram outra vez para o seqüestro do cônsul. No comando da ação, Félix Rosa Neto e, como motorista, Irgeu João Menegon. No mesmo carro iam Fernando da Matta Pimentel (Jorge) e Gregório Mendonça (Fumaça). No carro de cobertura estavam Antônio Carlos Araújo Chagas (Augusto), Luiz Carlos Dametto e, como motorista, Reinholdo Amadeo Klement. Todos com revólveres, além de duas metralhadoras INA e granadas.
Pela manhã, quando o cônsul saiu de sua residência, partiram para o ataque. O diplomata, seguido pelos sete terroristas, foi salvo pelo excesso de tráfego que impediu o emparelhamento com o seu veículo.
Decepcionados, mas persistentes, esperaram nova saída do alvo da sua residência, o que aconteceu às 16 horas. Curtis dirigiu-se à Vila Hípica, em sua caminhonete Plymonth, e, novamente, foi seguido pelos dois carros.
A sorte parecia estar ao lado dos seqüestradores. O cônsul errou o caminho, entrou numa rua sem saída e teve de retornar. Armas a postos, Irgeu emparelhou o Volks com a possante Plymonth e Reinholdo fez o mesmo, pelo outro lado, com o carro de cobertura. O cônsul, pensando que os rapazes faziam um “pega”, acelerou sua Plymonth e os deixou, atônitos, para trás.
Não podiam desistir, ainda mais depois de terem comunicado ao CN e Juarez de Brito ter se empenhado na redação do comunicado. Era necessário insistir. A ação era importante. Portanto, à noite, estavam novamente a postos. Agora era vida ou morte.
A sorte estava com eles. Por volta das 20 horas, o alvo saiu com sua esposa para visitar amigos. Ficou na casa até as 22h30 e saiu acompanhado, além da esposa, por um amigo.
Os seqüestradores estavam à espreita. Começaram a seguir o cônsul. O horário era o ideal; pouca gente na rua, pouco tráfego. Porque não pensaram logo em fazer a ação à noite?
Logo depois da Rua Ramiro Barcelos, Curtis, que ia em baixa velocidade, foi ultrapassado pelo Fusca de Irgeu, que imediatamente, o fechou ocorrendo uma pequena batida. Félix, Fernando e Gregório desceram cercando a caminhonete.
O cônsul, forte e decidido, vendo as armas, não pensou duas vezes: acelerou sua possante Plymonth, atropelando o pequeno Volks e, de quebra, Fernando Pimentel. Félix, por trás, atirou com sua pistola .45, quebrando os vidros e ferindo Curtis que, em ziquezague, seguiu à toda velocidade, conseguindo escapar.
Três dos azarados ou incompetentes seqüestradores foram presos uma semana depois pela equipe do DOPS/RS, chefiada pelo delegado Pedro Carlos Seelig. Os outros, sem muita demora.
A seguir transcrevo parte do comunicado que o Comando Nacional da VPR havia preparado, certo de que a ação seria um sucesso.
O cônsul norte-americano em Porto Alegre (Curtis Cutter) foi seqüestrado às... horas do dia... de ... pelo Comando “Carlos Marighella” da Vanguarda Popular Revolucionária. Esse indivíduo, ao ser interrogado, confessou suas ligações com a “CIA”, Agência Central de Inteligência, órgão de espionagem internacional dos Estados Unidos, e revelou vários dados sobre a atuação da “CIA” no território nacional e sobre as relações dessa agência com os órgãos de repressão da ditadura militar. Ficamos sabendo, entre outras coisas, que a “CIA” e o CENIMAR sofrem a concorrência do SNI, sendo que essa rivalidade é tão acentuada que em certa data um agente da “CIA” foi assassinado na Guanabara por elementos do SNI. Esse informe foi cuidadosamente abafado pela ditadura, mas o depoimento do Agente Cutter, nosso atual prisioneiro, permitiu que o trouxéssemos a público.
Se o cônsul Curtis Carly Cutter tivesse sido seqüestrado, esse comunicado seria difundido pela imprensa e muitos acreditariam. Assim se forjam as mentiras, reescreve-se a história e faz-se a cabeça dos brasileiros.
Mentira. Eis a grande arma dessa gente para impor a sua versão desonesta dos fatos e da história.

Essa é a motivação maior que me leva a escrever. Desmentir a fraude dessa gente e demonstrar a sua impostura, resgatando a verdade com fatos irretorquíveis.

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