sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sonata para Carmen

por Hugo Studart
Folha de São Paulo - 23/12/2011
Carmen acalenta a esperança de ouvir a canção que Hélio lhe compôs antes de desaparecer, quando partiu para a guerrilha do Araguaia; será a sua sonata
Carmen Navarro tem passado seus dias à espera de uma canção. Qual? Ora, isso ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir.
A última vez em que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e saiu.
Foi se juntar à turma que montava a guerrilha do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 136 desaparecidos da ditadura.
Sua mãe acredita que ele esteja vivo, resguardado sob uma nova identidade que teriam lhe arrumado os militares. Por anos Carmen alimentou a esperança de reaver o filho. Hoje conforma-se em receber um singelo acalento, um sinal de vida - a música que ele lhe compôs. Pode chegar por e-mail anônimo.
A história por trás desse drama é pura nitroglicerina política - e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas de Carmen. Em fins de 1973, o presidente Emílio Médici deu ordens ao Exército para caçar e aniquilar os 47 guerrilheiros que ainda lutavam no Araguaia. Ernesto Geisel confirmou a ordem de não deixar ninguém vivo.
Ocorre que cinco deles teriam sido poupados. Os militares os chamam de "mortos-vivos". Teriam feito acordo de delação premiada e recebido novas identidades. Pelo acerto, não poderiam sequer procurar suas famílias. Quem são eles?
Ora, os nomes são conhecidos há quase 40 anos por grande parte da antiga repressão e há mais de 20 anos pela esquerda. O ex-senador Jarbas Passarinho já revelou e confirmou que de fato seriam cinco os "mortos-vivos", e que empregou dois deles no MEC quando era ministro da Educação.
A Justiça Federal já expediu ordem à Polícia Federal para que investigue e localize esses possíveis sobreviventes. Na ordem, citou os nomes a serem procurados. É um tema que deve entrar para a Comissão da Verdade.
O caso mais conhecido envolve Hélio Luiz e os dois companheiros que com ele foram presos, Luiz Renê Silveira, o "Duda", e Antônio de Pádua Costa, o "Piauí".
Leitura recomendada. Talvez Hugo Studart, ouvido pela CV, possa 
acrescentar dados novos sobre os "mortos-vivos"
Hélio é filho de um comandante de Marinha, Hélio de Magalhães. Também é sobrinho do almirante Gualber de Magalhães. Quando os três foram presos, Gualber era o vice-ministro da Marinha. Os prisioneiros já estavam sendo executados no Araguaia. Mas quando o Exército descobriu quem era "Edinho", reviu os planos. Ele teria apelado pelos dos amigos "Duda" e "Piauí".
Passarinho acredita que sejam esses dois os que abrigou no MEC. Aberta a exceção, pelo menos mais dois teriam feito acordo para sobreviver - um deles seria Tobias Pereira Jr., o "Josias".
Hélio teria ficado sob a proteção do Centro de Informações da Marinha. Os demais, sob monitoramento do Centro de Informações do Exército. Carmen Navarro jamais acreditou na morte do filho. Com o ex-marido, há muito falecido, tentou em vão informações. Já o ex-cunhado Gualber, passou três décadas tentando convencê-la, com ênfase inexplicável, de que o sobrinho teria sido morto no Araguaia.
Sob nova identidade, Hélio teria se mudado para São Paulo a fim de trabalhar numa multinacional francesa que na época se instalava no Brasil. Carmen informa que, nessa época, o almirante Gualber alugou um terreno da família para o Carrefour se instalar no Brasil. Hélio teria se casado logo depois da guerrilha e tido dois filhos. Mas nunca procurou a mãe.
O amigo Luiz Renê, se vivo estiver, também jamais procurou a família. No caso de outro possível poupado, Tobias, é sua família que se recusa a receber militantes de esquerda ou jornalistas.
Há um ano, Carmen enviou uma carta ao filho por meio da Marinha. Dizia a Hélio Luiz que não lhe cobraria ou perguntaria nada, que ele nada precisava justificar - mas que apenas a deixasse vê-lo uma vez. É provável que a carta esteja na gaveta de algum militar.
Ainda mais resignada, Carmen agora acalenta a esperança de escutar aquela canção que Hélio lhe compôs antes de desaparecer. Será sua sonata. 
Hugo Studart é jornalista e historiador,
autor de "A Lei da Selva",
 livro sobre a guerrilha do Araguaia.
Fonte:   A Verdade Sufocada

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