sábado, 10 de setembro de 2011

O Dia da Penitência

por Clóvis Heberle*
Em Oruro, no altiplano boliviano, a principal atividade econômica é a mineração, desde que os espanhóis conquistaram a região e passaram a explorar o subsolo. Na época colonial, os índios eram usados como mão de obra, e morriam às centenas de milhares no trabalho das minas.
Aprenderam nas aulas de catecismo dadas pelos missionários católicos que Deus habitava o céu e o diabo as profundezas da terra. Concluíram que com uma mãozinha do senhor das trevas tudo seria mais fácil - achar bons veios de ouro, prata ou cobre, ou pelo menos não morrer num desmoronamento. E assim surgiu a diablada.
Desde o século 16, na época do carnaval, os moradores de Oruro dançam e cantam com os rostos encobertos por máscaras medonhas representando a imagem de satanás. A tradição de homenagear o diabo perdura até hoje, e virou atração turística internacional. Mas, terminada a festa, correm às igrejas para pedir perdão a Deus e à Virgem e serem perdoados deste pecado.
É o dia da penitência.
No Brasil, em agosto, a Rede Globo e a Mc Donalds também fazem a sua penitência. 
A Globo satura os lares brasileiros com violência, futebol, sexo e besteirol. As crianças são as maiores vítimas, submetidas a programas que estimulam a erotização precoce, a alimentação à base de doces, refrigerantes e salgadinhos e a solução de seus problemas na base da pancada, da intriga e da fococa. As menininhas, para estarem na moda, usam baton, se pintam, calçam sapatos de salto e usam roupinhas justinhas. Beijar, namorar e conspirar contra coleguinhas, como nas novelas, se tornam as prioridades numa fase de suas vidas em que não têm condições de avaliar o certo e o errado. 
Mas, um dia por ano, há o Criança Esperança. Os funcionários da empresa são convocados a pedir dinheiro para obras em favor das crianças. É o dia da penitência. 
A Mc Donalds, que durante 364 dias por ano entope seus clientes com alimentos à base de carbohidratos, gorduras e refrigerantes (água carbonada com xaropes), tornando-os obesos e desnutridos, criou o Mc Dia Feliz. Com a ajuda de jornalistas, atores de TV e artistas conhecidos, recolhe dinheiro doado posteriormente a entidades dedicadas ao tratamento do câncer infantil. Um dia de penitência pelo dano que causam, principalmente, a meninos e meninas.
Mas, ao contrário dos índios bolivianos, os pecados destas duas megaempresas são reais, e não fruto da imaginação dos padres que acompanhavam os conquistadores espanhóis. 
E não é com um ato penitencial por ano que eles serão perdoados.
* Clóvis Heberle é jornalista e edita o

Um comentário:

Eduardo disse...

Come no Mc Donalds quem quer. Come todo dia no Mc Donalds quem quer. Quem faz dos sanduíches do Mc Donalds a sua única alimentação age assim por sua própria vontade. O Mc Donalds não obriga ninguém a se empanturrar de hamburguers. Também não obriga os pais a empanturrarem os seus filhos de hamburguers. Isso tudo é tão aborrecidamente elementar...O que o autor sugere para resolver o suposto problema por el apresentado? Fechar as lanchonetes do Mc Donalds à força? Fechar também as lanchonetes do Bob´s, do Burguer King, cantinas de colégios, etc...Será que o autor defende a idéia que o Estado determine o que devemos comer? Ou quem sabe um grupo de auto-proclamados especialistas e donos da verdade deveria fazer uma cartilha informando o que nós, pobres ignorantes, devemos comer ou não? Acredito que EU mesmo devo me encarregar de decidir o que EU vou comer ou não. Se a minha escolha for uma maravilha ou uma bosta o PROBLEMA É MEU.
Gosto muito deste blog, que acesso diariamente, mas acho que vocês pisaram na bola ao publicar esse texto. Mesmo assim continuarei prestigiando o trabalho de vocês.