terça-feira, 13 de setembro de 2011

Favelas Pacificadas?? Como Assim??

por Carlos Newton
Depois da terceira noite de confrontos entre militares do Exército e traficantes no Complexo do Alemão, o bairro teve a segurança reforçada. Com mais de cem homens, a Polícia Militar decidiu ocupar, por tempo indeterminado, dois morros vizinhos – da Baiana e do Adeus. E na quarta-feira (7/9), soldados do Exército fazem uma grande operação nos acessos ao complexo em dois blindados do tipo Urutu.
A manutenção do tráfico de drogas no Alemão e nas demais favelas ditas “pacificadas” mostra que Helio Fernandes tinha toda razão, ao denunciar repetidas vezes que não houve pacificação alguma, apenas um pacto entre o governador e os traficantes. O tráfico continua, nunca parou, e agora está enriquecendo os PMs que tomam conta das favelas “pacificadas” e levam comissão dos traficantes, como ficou provado agora no caso dos três PMs presos no Morro da Coroa, com R$ 13 mil nos bolsos.
Por isso vale a pena ler de novo o artigo publicado aqui no Blog pelo jornalista Helio Fernandes em 8 de julho de 2010. Parece que foi escrito hoje.
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A “pacificação” das favelas não passa de um acordo entre o governador e os traficantes, que podem “trabalhar” livremente, desde que não intimidem os moradores.
por Helio Fernandes
Em dezembro de 2009, publiquei aqui no Blog um importante artigo de denúncia, mostrando que a política de “pacificação” das favelas não passa de uma manobra eleitoreira do governador cabralzinho, que inclui um incrível e espantoso acordo entre as autoridades estaduais e os traficantes que atuavam (e continuam atuando) nessas comunidades carentes.
O acordo está “firmado” sob as seguintes cláusulas:
1 – Os traficantes somem com as armas da favela, com os “soldados” de máscaras ninjas, com os olheiros e tudo o mais. 
2 – A PM entra na favela, sem enfrentar resistência, ocupa os pontos que bem entender, mas não invade nenhuma casa, nenhum barraco, e não prende ninguém, pois não “acha” traficantes ou criminosos. 
3 – A favela é tida como “pacificada”, não existem mais marginais circulando armados, os moradores não sofrem mais intimidações, não há mais balas perdidas. 
4 – Em compensação, o tráfico fica liberado, desde que feito discretamente, sem muita movimentação.
Até o Blog publicar esses artigos, ninguém havia tocado no assunto. A implantação das chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) vinha sendo saudada pela imprensa escrita, falada e televisada como uma espécie de panacéia na segurança pública. Era como se, de súbito, as autoridades estaduais e municipais tivessem conseguido “colocar o ovo em pé”, resolvendo de uma hora para outra o maior problema da atualidade: a violência e o tráfico de drogas nos guetos das grandes cidades.
Não há dúvida, esse é um dos maiores desafios da humanidade. Como todos sabem, em praticamente todos os países do mundo, governantes e autoridades da segurança pública continuam sem saber como enfrentar e vencer o problema da criminalidade e do tráfico. Menos no Rio de Janeiro. Aqui, houve uma espécie de “abracadabra”, um toque de varinha de condão, e num passe de mágica, as favelas foram “pacificadas”, que maravilha viver.
O mais interessante: não foi disparado um único e escasso tiro, os traficantes e “donos” das favelas não lançaram uma só granada, um solitário morteiro, não acionaram seus lanças-chamas, seus mísseis portáteis, seus rifles AR-15 e M-16, suas submetralhadoras Uzi, nada, nada.
No artigo-denúncia que publiquei no final de dezembro de 2009 e nos outros que se seguiram em janeiro, chamei atenção para esse fato espantoso: ninguém reparou que a tal “pacificação” foi fácil demais, não houve uma só troca de tiros?
O pior foi a atitude do governador cabralzinho, que deve pensar (?) que os demais cidadãos são todos imbecis e aceitam qualquer “explicação” que lhes seja fornecida pelas autoridades. Recordemos que foi ele quem teve a ousadia e a desfaçatez de vir a público e proclamar, textualmente: “dei prazo de 48 horas para os traficantes deixarem o Cantagalo-Pavão-Pavãozinho”.
Como é que é? O governador esteve como os traficantes, “cara-a-cara”, e fez o ultimato? Ou mandou recado por algum amigo comum? Como foi o procedimento? Ninguém sabe.
O que se sabe é que o governador alardeava (e continua alardeando) que, em todas as favelas onde a Polícia Militar instalou as UPPs, os traficantes e criminosos simplesmente sumiram, assustados, amedrontados, apavorados.
Seria tão bom se fosse verdade. Mas o que é a verdade para esse governador enriquecido ilicitamente, cuja mansão à beira-mar em Mangaratiba virou ponto de atração turística? Para ele, a verdade é a versão que ele transmite, por mais fantasiosa que seja, como se fosse um ridículo Pinóquio de carne e osso (aliás, muito mais carne do que osso, já caminhando para a obesidade precoce), a inventar contos da Carochinha para iludir os eleitores.
Quando escrevi a série de artigos desmascarando a “pacificação das favelas”, houve tremenda repercussão (como ocorre com tudo que sai publicado nesse Blog ou na Tribuna da Imprensa). Mas a maioria das pessoas se recusava a acreditar. Não podiam aceitar que um governante descesse a nível tão baixo, criasse tão estarrecedora mistificação, tentasse manipular tão audaciosamente os eleitores.
Mas meus artigos plantaram a semente da dúvida. Nas redações, os jornalistas começaram a questionar a veracidade do sucesso dessa política de segurança pública. Até que, há dois ou três meses, O Globo publicou uma página inteira em sua seção “Logo” (que é uma espécie de “pensata”), ironizando a facilidade com que as favelas teriam sido “pacificadas”. (Não me deram crédito nem royalties, é claro, mas fico esperando o pré-sal).
Agora, no dia 2 de julho, mais uma vez O Globo, em reportagem de Vera Araújo, comprova que meus artigos de denúncia estavam corretos. Sob o título “Feirão de Drogas Desafia UPP”), com fotos impressionantes feitas em maio na Cidade de Deus, a matéria mostra que o tráfico de drogas está e sempre esteve liberado, exatamente como afirmei.
Ao que parece, a repórter nem chegou a ir à Cidade de Deus. As fotos na “favela pacificada” foram feitas por um morador do local, que as enviou ao jornal. Foi facílimo fazer a matéria, as imagens dizem tudo.
No dia, seguinte, mais um repique em O Globo, mostrando que, assim com o tráfico de drogas, também a exploração de caça-níqueis está liberada na comunidade “tomada” pela PM. As fotos, novamente, são de um morador da favela, que o jornal, obviamente, não identifica.
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PS – Isso não está acontecendo somente na Cidade de Deus. Em todas as favelas pacificadas, ocorre o mesmo.
PS2 – Aproxima-se a eleição e, na campanha, o governador vai massacrar a opinião pública com a divulgação do êxito da “pacificação das favelas”. Este é ponto mais forte de sua “plataforma” eleitoral, ao lado das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento).
PS3 – Aliás, UPPs e UPAs, tudo a ver. As UPAs também são um golpe de marqueting político-eleitoral, conforme iremos demonstrar neste Blog.
PS4 – O desgoverno de cabralzinho é um tema longo, do tipo “E o vento levou”. E seria bom, perdão, seria ótimo, se o vento o levasse permanentemente para longe de nós.
Fonte:  Tribuna da Imprensa
FotoATUALIZANDO:
A Polícia Militar do Rio de Janeiro decidiu afastar nesta segunda (12) o comandante e o subcomandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) dos morros Coroa e Fallet/Fogueteiro, na zona norte, após denúncia de que os policiais recebiam propina de traficantes da região.
A PM informou em nota que o capitão Elton Costa e o tenente Rafael Medeiros foram afastados com base em um inquérito aberto há 60 dias para investigar “um esquema de pagamento de propina em troca do relaxamento das ações de fiscalização e favorecimento da venda de drogas nas comunidades”. Segundo o comandante da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, a investigação está em fase final e deve ser concluída em uma semana.
COMENTO:  alguns jornalistas parecem visionários. Hélio Fernandes é um desses. Mas não é capacidade de adivinhação. É profissionalismo e capacidade de se manter íntegro, sem se vender aos governantes em troca das malditas "verbas de comunicação social" que os patifes retiram dos investimentos em educação, saúde, rodovias e outros serviços sociais para utilizar na compra da opinião de "comunicadores" tão canalhas e corruptos quanto os que os compram. E a cúpula das Forças Armadas se presta e se apresta a legitimar essa pantomima. 

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