sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Saudades da Guerra Fria

por Janer Cristaldo
A cada dia que passa, o mundo se torna cada vez mais medíocre. Não bastasse essa tal de Parada Gay, onde a bicharada exibe sua sexualidade nas ruas, surge agora o dia do orgulho hétero. Ainda há pouco, eu me espantava com o número de marchas em São Paulo. Pelo jeito, teremos mais uma, marcada para mês que vem, a do orgulho heterossexual. Projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal prevê a data oficial em todos os terceiros domingos de setembro.
Sexualidade, a meu ver, é questão de foro íntimo de toda pessoa. Sem ser moralista, me parece um tanto obsceno sair proclamando nas ruas: olha, gente, eu sou homo, eu sou hétero. Para quando teremos a marcha dos bi?
A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) – bicha agora tem sindicato – chiou. Em carta aberta a Gilberto Kassab, pediu que o prefeito vete o projeto de lei do vereador Carlos Apolinário, membro da igreja Assembléia de Deus, aprovado na Câmara na terça-feira passada. Para a entidade, há motivos históricos para haver o Dia do Orgulho Gay, mas não há razão para criar o Dia do Orgulho Hétero pela simples preservação da moral e dos bons costumes.
Longe de mim tomar partido nessa discussão idiota. Mas, pelo que vemos, os homossexuais podem fazer proselitismo por sua opção sexual. Héteros não podem. Um abaixo-assinado na internet organizado por uma militante da Baixada Santista, pedindo o veto ao projeto, tinha cerca de 1.500 assinaturas na noite de ontem.
Os militantes gays estão tentando criar uma nova tipificação jurídica, a homofobia. Seria algo como repulsa, rejeição, preconceito em relação aos homossexuais. Para começar, como tantos outros que surgem na imprensa, o neologismo está errado. Homo significa mesmo e fobia significa medo. Literalmente, a palavrinha significaria mesmo medo. Mesmo tomando homo como significado de homossexuais, a palavra continua errada. Significaria medo de homossexuais. Ora, ninguém tem medo de homossexuais. O medo que pode existir é de alguém descobrir-se homossexual. É o caso desses religiosos que vivem vituperando contra a homossexualidade o tempo todo. Pelo jeito, querem esconjurar o demônio.
Quem está patrocinando esta tal de legislação anti-homofóbica é o PT. E só podia ser. Com a queda do muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética, as viúvas do Kremlin, saudosas da finada luta de classes, criaram agora outros conflitos. Se você for pesquisar os arquivos de jornais – e eu fiz esta pesquisa na Folha de São Paulo – verá que na década de 90 a palavra racismo se multiplica por mil na imprensa. Se a luta de classes obsolesceu, vamos agora jogar raça contra raça. Se isto não bastar, jogamos sexo contra sexo. Sem lutas, a Idéia – como se dizia no início do século passado – não avança.
Kassab, um político medíocre em eterna caça de votos, sabe que o eleitorado gay já tem peso em uma eleição. Disse não ver motivos para vetar o projeto aprovado na Câmara. Segundo ele, trata-se de uma data como outra qualquer, como dia do médico e do professor. Ora, médico e professor são profissões. Gays ou héteros, pelo que me consta, ainda não são. 
Está declarada a guerra entre gays e heteros. O projeto do vereador pode se revelar um tiro no pé. De repente, só consegue alguns gatos pingados em defesa da heterossexualidade. Agora temos as lutas raciais, negros contra brancos, índios contra civilizados. Não bastasse a luta racial, surgiu agora a sexual, homos contra héteros.
Saudades da Guerra Fria, quando havia uma só luta, a de classes.

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