quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Canto da Sereia

por Lenilton Morato
Nos mares da antiguidade, seres mitológicos hipnotizavam os navegadores e os atraíam para os rochedos, onde embarcações e tripulantes eram devorados. Seu canto conduzia marujos e capitães para a morte, enquanto estes achavam-se completamente entorpecidos pelo belo canto. Ao abrirem os olhos, viam seres metade peixe, metade mulher, irresistivelmente belos e sedutores que, com um olhar penetrante e suave porém mágica voz, atraíam e matavam aqueles homens que se achavam envoltos numa verdadeira visão do paraíso. Assim, por completa incapacidade para perceber o perigo e total entrega a prazeres efêmeros, esses homens trocavam instantes de puro deleite por uma eternidade de escravidão, pagando com a própria vida.
Passados alguns milênios, navegadores continuam sendo seduzidos pelo canto da sereias. Se outrora, barcos eram atraídos ao rochedo, hoje são as pessoas que são atraídas para uma prisão mental onde, seduzidas pela falsa bonança econômica, entregam alegremente sua liberdade em nome do crédito fácil e de uma bolsa qualquer. Não conseguem perceber a armadilha e acabam seduzidas pela promessa de inclusão social e melhores condições de vida. Mas que preço estão dispostas a pagar? Ao que parece estão dispostos a pagar com a própria liberdade.
No tempo dos navegadores greco-romanos, as sereias cantavam uma canção. Hoje a canção é diferente, mas não menos sedutora: pipocam a todo instante nas páginas dos jornais a democratização do crédito, o aumento da classe C e os milhões de brasileiros retirados da miséria. Finalmente as pessoas estão subindo na pirâmide social. Isto tudo é verdade. Parece que estamos sim evoluindo. Parece...
Com a sedução econômica, o monstro esconde o progressivo processo de destruição da sociedade. O projeto anti-homofobia, que proíbe as pessoas de terem opinião contrária ao homossexualismo bem como a aprovação de uma gramática que ensina nossos filhos a serem analfabetos são apenas dois exemplos de reformas que estão sendo feitas à margem da vontade da população, com a intenção clara de desestabilizar e desmoralizar nosso corpo social. A alta cultura passa a ser algo "de burguês" e a opinião só é permitida se for igual ao politicamente correto. Perde-se com isto a liberdade de opinião, algo fundamental para a democracia. Como isto é possível? Ora, é só garantir o acesso dos mais pobres a uma TV LCD ou carros e viagens para a classe média.
Assim, enquanto todos comemoram o crescimento do país e sua colocação como sétima maior economia do mundo, questões de extrema importância vão sendo deixadas ao largo, e resoluções são aprovadas com o objetivo de cada vez mais acabar com a liberdade do indivíduo. Tudo isto feito enquanto são anunciadas as conquistas sociais recentes.
É nessa hora que a chamada classe "C" se esquece que cerca de 40% do valor que ela paga pelo seu automóvel é imposto. Esquece que nas escolas estão ensinando seus filhos a utilizarem a camisinha, mas estes mesmos alunos são incapazes de resolver uma equação do segundo grau, ou de produzir uma sentença gramaticalmente correta. A elite deixou de existir no Brasil. Ela foi progressivamente aderindo à cultura popular, e isto fez com que perdesse sua identidade e se "emburrecesse". As camadas mais pobres foram sendo mimadas pelo apoio estatal, que distribui dinheiro ao invés de trabalho e emprego.
Os hospitais continuam lotados, a violência continua ceifando a vida de milhares de brasileiros e a infra-estrutura continua aquela herdada dos militares. E a solução dada para esses problemas? Criação de mais e mais ministérios e secretarias que servem apenas para absorver aliados políticos e onerar ainda mais a já tão explorada população brasileira, com mais imposto.
Acabando com a alta cultura e destruindo a liberdade de opinião, a liberdade intelectual é retirada do indivíduo. Sem compreender corretamente as regras gramaticais do chamado texto culto, os jovens serão cada vez mais incapazes de entrar em contato com grandes autores e pesquisadores garantindo que tudo corra conforme as ordens do partido, que isola intelectualmente toda uma nação, que passa a acreditar que essas mudanças fazem parte de suas tradições.
Como navegadores gregos, rumamos para o rochedo entorpecidos por uma falsa realidade que nos envolve, e seguimos felizes para os braços sensuais da sereia, da nova ordem mundial, do politicamente correto. A diferença é que, ao invés da morte, seremos transformados em zumbis desprovidos de senso crítico e da liberdade de escolha, vivendo em uma realidade fictícia que, para nós, parecerá real.
Fonte:  Lenilton Morato

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