sexta-feira, 20 de maio de 2011

FARC/PT - Era pior do que se pensava

A análise de 5.700 mensagens encontradas nos arquivos de um chefe das Farc morto em 2008 revela as conexões do grupo com Chávez, Correa e o PT
Reportagem de ANA CLAUDIA FONSECA, HUGO MARQUES, JULIA CARVALHO e RODRIGO RANGEL
A divulgação de um pacote com 5.700 documentos dos arquivos dos computadores do narcoterrorista Raúl Reyes, na semana passada, é de deixar um Julian Assange, australiano fundador do site WikiLeaks, dedicado a revelar segredos de estado, verde de inveja. O colombiano Reyes, cujo nome verdadeiro era Luis Edgar Devía, coordenava a Cominter, a rede internacional de representantes e colaboradores das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele foi morto em 2008 em um ataque do governo democrático colombiano contra seu acampamento, no Equador, onde foram encontrados três laptops, dois discos rígidos e três cartões de memória - ou seja, um arquivo completo sobre as atividades da guerrilha que, no passado, aspirava a tomar o poder para instalar na Colômbia uma ditadura comunista e hoje não passa de um bando criminoso que sobrevive de sequestros e tráfico de cocaína e armas. Uma pequena parcela dos documentos de Reyes vazou para a imprensa desde então, entre os quais algumas dezenas que davam indícios das ligações das Farc com o Brasil e, em especial, com militantes e políticos de esquerda. Após ter sua autenticidade certificada pela Interpol, a íntegra do material foi entregue pelo governo do presidente Alvaro Uribe ao Instituto de Estudos Internacionais Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), uma entidade de credibilidade inabalável com sede em Londres. Na semana passada, o IISS divulgou um relatório com uma análise dos documentos. Há revelações devastadoras, como as de que o governo Hugo Chávez encomendou às Farc o treinamento de milícias e o assassinato de opositores venezuelanos e prometeu ao grupo 300 milhões de dólares para comprar armas. Também vieram à tona indícios de que o presidente do Equador, Rafael Correa, recebeu 400.000 dólares das Farc para financiar sua campanha eleitoral, em 2006. Possivelmente para evitar as cobranças que receberia de jornalistas ou de sua colega Dilma Rousseff, Chávez cancelou sua visita ao Brasil poucas horas antes da divulgação do relatório, na semana passada. As revelações são, em tese, suficientes para justificar uma ação penal contra Chávez em um tribunal internacional. “Há dois crimes em suas ações: conspiração e formação de quadrilha para delinqüir”, diz Maristela Basso, professora de direito internacional da Universidade de São Paulo.
Os pesquisadores ingleses concentraram-se em analisar as relações das Farc com a Venezuela e o Equador. Junto com seu relatório, contudo, divulgaram um CD com grande parte dos e-mails, das transcrições de gravações e das prestações de contas encontradas no computador de Reyes, num total de 1.500 páginas de documentos em estado bruto. VEJA passou um pente fino nesse vasto material e cruzou-o com sete dezenas de documentos sobre as Farc entregues por Uribe ao governo Lula, em 2008. Há, no conjunto da obra, muitas informações que confirmam velhas suspeitas sobre os tentáculos das Farc no Brasil. Os e-mails do arquivo de Reyes mostram que as Farc agem com bastante liberdade em território brasileiro. Aqui, os narcoterroristas conseguem documentos falsos (frequentemente, com a ajuda de diplomatas venezuelanos), recebem o apoio de políticos e militantes de partidos de esquerda para arrecadar dinheiro, compram armas e fazem proselitismo para conquistar simpatizantes e, quem sabe, novos recrutas. Esse fato, aliás, foi confirmado por Marli Machado Bittar, de São Paulo. Marli tem um filho, Vladimir, que se tornou guerrilheiro das Farc, com o codinome Rafael Spindola. Ela disse em depoimento à Polícia Federal ter ouvido de um amigo comum que foi o colombiano Olivério Medina quem o recrutou.
Medina, nome de guerra de Francisco Cadenas Collazos, é um dos representantes das Farc no Brasil. Até 2006, tinha como companheiro no país Orlay Jurado Palomino, codinome Hermes, acusado de ter participado do sequestro e do assassinato da filha do ex-presidente paraguaio Raúl Cubas, Cecilia, em 2005. Medina foi preso a pedido da Colômbia em 2005 e no ano seguinte recebeu status de refugiado político do governo brasileiro e foi solto. Ele era um dos principais interlocutores de Reyes e os e-mails mostram que continuou defendendo os interesses das Farc no Brasil até a morte do chefe, em 2008.
Os e-mails das Farc mostram que, até ser preso, Medina contava com a ajuda providencial da diplomata Eloisa Lagonell da embaixada da Venezuela em Brasília, e do artista plástico Pavel Égüez, adido cultural do Equador no Brasil. Em uma correspondência, Medina chega a relatar informações sobre um encontro entre Chávez e Lula, que teriam sido repassadas por Lagonell. O episódio revela o grau de intimidade das Farc com a burocracia venezuelana e quando o governo Chávez estava disposto a intermediar os interesses do grupo na região - fato comprovado por inúmeros outros e-mails do arquivo. Outro personagem que servia de conexão entre as Farc no Brasil e na Venezuela era o deputado chavista Amilcar Figueroa Salazar, codinome Tino. Em uma mensagem de 27 de janeiro de 2006, portanto escrita na cadeia, Medina conta a Reyes sobre um trambique que estava planejando para conseguir uns trocados para as Farc. O conteúdo era: “Por meio de Viana (o bancário Antônio Carlos Viana, que em 2002 esteve presente ao churrasco em Brasília em que Medina supostamente prometeu 5 milhões de dólares para ajudar a eleger Lula), Tino ficou sabendo sobre os Telecentros montados no MST e nos povoados de pescadores artesanais, que funcionam via satélite. Em Caracas gostaram da ideia. Tino ligou para Viana para contar-lhe e propor que faça um projeto. Quando Viana me comentou sobre isso, propus que o façamos por meio do Cela, para ver se sobra algum centavo. Te manterei informado”.
Tudo indica que o núcleo brasileiro da guerrilha movimentava altas somas em dinheiro. Em uma mensagem de outubro de 2003, o chanceler das Farc, Rodrigo Granda, baseado em Caracas e posteriormente também envolvido no sequestro de Cecilia Cubas, conta que Tino cruzou a fronteira com 60.000 (possivelmente dólares), enquanto, “no cofre, 150 ficaram com Albertão”. Trata-se aqui de Edson Antônio Albertão, ex-vereador petista de Guarulhos. No mesmo e-mail, Granda conta que Tino, Camilo (outro codinome de Medina) e um terceiro companheiro chamado Zé Maria foram assaltados no centro de São Paulo. O trio de terroristas perdeu 250 reais e um celular. Ficaram indignados pelo fato de tudo ter ocorrido “em plena luz do dia, às 10 horas”. Ladrão malvado.
Albertão não era o único petista que se relacionava com as Farc. No CD divulgado pelo IISS, há uma menção reveladora ao ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira. Em mensagem de 19 de junho de 2003, Granda descreve o encontro que teve com Ferreira em Quito, no Equador. Conversamos muito com ele”, escreveu Granda. Ferreira era secretário de relações internacionais do PT, portanto tinha autoridade para falar em nome do partido do recém-empossado Lula. Em março de 2005, Ferreira disse a VEJA que, se havia ligações entre membros do PT e as Farc, ocorriam à revelia do partido. “Posso dizer que são até criminosas”, declarou. Na sexta-feira passada, perguntado sobre o encontro citado nos e-mails, Ferreira adequou o discurso. Disse que a reunião aconteceu no Foro de São Paulo, um encontro de organizações esquerdistas da América Latina, em Quito, e que só depois ele ficou sabendo que Granda era das Farc. Granda, é bom lembrar, era então a face mais conhecida das Farc no exterior e um ano antes havia sido incluído na lista de criminosos procurados pela Interpol. A seu favor, Ferreira tem o fato de que enganar brasileiros parecia ser especialidade de Granda. O relatório do IISS destaca uma mensagem eletrônica em que ele diz ter sido interrogado pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, em 2002. Granda conta que conseguiu esconder um arquivo que o incriminaria antes de ser levado para a sala da PF e explica como, por fim, se safou da encrenca com uma solução sui generis: “Liguei para Caracas”, diz ele. Em outro e-mail, o chanceler das Farc revela que o cônsul da Venezuela em Manaus deu “vistos de cortesia” para alguns guerrilheiros viajarem do Brasil para a Venezuela, em 2003, e até indicou o contato de um chefe de imigração que poderia resolver problemas com documentação. Está comprovado: os interesses das Farc estendiam-se pelo território brasileiro como os muitos e longos tentáculos de um molusco pegajoso.
VEJA - 14/05/2011
Fonte:  Lili Carabina 

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