segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um Presidente debochado?

No final de semana passado (3/9), o Presidente do Brasil esteve no Parque da Expointer. Nada mais adequado que o Chefe do Executivo Federal prestigiasse a maior feira agropecuária da América Latina, no que deveria ser uma demonstração do reconhecimento da União ao setor econômico que tem funcionado como âncora da estabilidade econômica nacional. Todavia, o repórter estrangeiro que perguntasse quais foram os resultados do encontro entre o presidente e as lideranças do agronegócio brasileiro certamente se surpreenderia ao ser informado que esta reunião, surpreendentemente, não existiu. Não porque faltem problemas ou reivindicações da produção rural a expor ao presidente da República, e sim porque o Chefe de Estado simplesmente desprezou o palanque das autoridades na Expointer, preferindo um passeio pelos estandes e uma conversa, de tom claramente populista e eleitoreiro, com os produtores da Agricultura Familiar – um “afago” que custou um prejuízo expressivo com o fechamento do pavilhão exclusivo do setor durante a visita presidencial. Lula entrou no Parque da Expointer sem falar com a direção da Farsul e ainda aproveitou a ocasião para fazer campanha para sua protegida. É como se alguém entrasse em uma casa sem pedir licença aos moradores, e ainda por cima cuspisse no chão da sala.
Se esta conduta fosse um episódio isolado, já seria escandaloso. Entretanto, o deboche com as instituições, vindo do mais alto mandatário da República, é parte de um método – até aqui, bem sucedido – de construção de um personagem. Este presidente que acaba de deixar a Expointer sem falar com as forças do agronegócio gaúcho, é o mesmo que debocha escancaradamente da Justiça Eleitoral a cada multa que recebe por promover, em atos oficiais, sem qualquer constrangimento, o nome de sua candidata. É o mesmo que, quando vai a outros Estados e precisa partilhar uma mesa de cerimônia com governadores adversários, sempre dá um jeito de que ali esteja uma claque petista a vaiar sem dó nem piedade seus opositores. É o mesmo que agora, no escândalo da violação do sigilo fiscal da filha de um candidato da oposição, transforma as vítimas em culpados e debocha do episódio. E faz tudo isso a galope de uma popularidade sem precedentes, que gera também a covardia de uma oposição que há muito tempo deixou de exercer o papel para o qual foi escolhida pelo voto popular, com medo justamente de ferir o personagem, o mito, o ‘herói do povo’.
Hoje se tornou até perigoso falar que Lula é herói às custas de sabotar as conquistas de todos os que lhe antecederam, com uma base congressual coalhada de oportunistas e malfeitores. E que posa de ‘Pai dos Pobres’ quando poderia, com mais justiça, ser considerado ‘Pai da Pobreza’, visto que cultiva sua olímpica aprovação justamente às custas de programas de transferência de renda que mantém milhões de brasileiros como dependentes do Estado – e, por conseguinte, do governo de plantão. Uma multidão de pessoas sem acesso a uma educação de qualidade, filhos da universalização rasa e rasteira do ensino nas últimas décadas, e com cuja incompreensão dos meandros da política Lula sempre conta.
Mas se chegamos a esta situação, isso também ocorreu pelo silêncio cúmplice dos que rejeitam esta postura e acham inaceitável que um presidente, seja ele de esquerda ou direita, use o escárnio como forma de diálogo, fazendo pouco caso de crises como a quebra do sigilo de dados da Receita Federal, deixando centenas de brasileiros reféns de um Estado cada vez mais discricionário e policial.
As eleições presidenciais que aí estão, a tirar o sono e o bom senso de nosso Presidente, abrem-se como janela para o futuro. Se queremos um Estado Democrático verdadeiramente maduro, onde ninguém seja perseguido ou ameaçado por discordar de governos ou partidos, precisamos exercer com coragem o direito de escolha, sem medo de patrulhas ou pressões. Em uma verdadeira democracia, são as leis – e não os humores do mandatário – que regem um destino seguro para um país.
Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel

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