quinta-feira, 3 de junho de 2010

Historiador rejeita tese de conspiração contra João Goulart

Exploração política da morte de um cardíaco
Por Bernardo Mello Franco - Folha de São Paulo
Após investigar por dois anos a morte do ex-presidente João Goulart (1918-1976), o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira afirma ser "charlatanice" a tese de que ele teria sido assassinado por agentes uruguaios a mando da ditadura brasileira.
Ele acusa a família de Jango de endossar a suspeita na tentativa de obter indenização dos Estados Unidos pelo apoio ao golpe de 1964.
"Isso só interessa à família, por motivos financeiros, e a alguns segmentos que pretendem fazer exploração política do caso", afirma.
A tese sobre o suposto assassinato de Jango é analisada num apêndice inédito ao livro "O Governo João Goulart", de Moniz Bandeira. A Folha teve acesso à obra, que volta às livrarias em junho pela editora Unesp.
Companheiro do ex-presidente no exílio, o professor aposentado da UnB contesta o relato do uruguaio Mario Neira Barreiro, que diz ter participado de uma operação para envenenar o ex-presidente no hotel em que ele vivia, em Buenos Aires.
O historiador afirma não ter dúvidas de que Jango morreu de infarto, devido a seu histórico de doenças cardíacas e à falta de cuidado com a saúde.
"Somente quem não raciocina e carece de um mínimo de conhecimento pode considerar seriamente a história de conspiração contada pelo delinquente Neira Barreiro", afirma ele no livro.

Farsa
Preso no Rio Grande do Sul por crimes comuns (tráfico de armas, roubo de carro-forte e falsidade ideológica), o uruguaio sustenta a versão de que o serviço secreto de seu país adulterou remédios para matar Jango e evitar sua volta ao Brasil.
Ele fez o relato à Folha, em janeiro de 2008, e à Polícia Federal, em depoimento tomado por ordem do ex-ministro Tarso Genro (Justiça).
Segundo Moniz Bandeira, a tese da troca de remédios é uma "farsa" e carece de provas. Ele afirma que o corpo não foi submetido a autópsia por decisão da família, e não por veto da ditadura.
Pesquisando os arquivos do caso, o historiador recuperou entrevista em que a viúva do ex-presidente, Maria Thereza Goulart, afirmou não ter dúvidas sobre a causa da morte do marido.
A declaração foi dada em 1982, quando o ex-governador Leonel Brizola defendeu a exumação do corpo de Jango após a divulgação de outra suspeita de assassinato.
Apesar de contestar a tese de homicídio, Moniz Bandeira faz uma defesa enfática de seu governo e da decisão de não resistir ao golpe de 1964: "Ele não resistiu porque não havia condições de vencer".
A Folha procurou a família de Jango por meio do Instituto João Goulart, presidido por seu filho João Vicente, mas não obteve resposta.

Um comentário:

Aneci disse...

Carta de esclarecimento dirigida a “Folha de São Paulo” da entrevista de Moniz Bandeira.

04 de junho de 2010

Carta de esclarecimento dirigida a “Folha de São Paulo” sobre a difamação da família Goulart pelo historiador Moniz Bandeira quanto à ação promovida contra os E.U.A.Prezado Diretor Editorial da Folha de São Paulo, Otavio Frias Filho.

O historiador Moniz Bandeira, através do seu veículo de comunicação, declarou ser objetivo de nossa família a promoção pessoal e interesse econômico diante de ação por nós promovida contra o governo dos E.U.A. com o uso de verbas secretas da CIA em 1964. A ação foi baseada na declaração pessoal do réu confesso e ex-embaixador americano Lincoln Gordon, no ano de 2002, para rede Globo de televisão e rede Bandeirantes e amplamente divulgadas à época. Faz-se necessário de minha parte esclarecer que:

1) Pela primeira vez, ainda que em grau de recurso, o governo americano terá que apresentar-se em um fórum estrangeiro para dizer se aceita ou não ser processado sob uma jurisdição que não a sua, por atos cometidos contra um Estado independente, no caso o Brasil. Acostumados a praticar invasões, terrorismo, subornos, assassinatos de líderes que não servem aos seus interesses, golpes de Estado e todos os atos que praticam subterraneamente em todo o mundo, os E.U.A serão finalmente colocados em cheque.

2) Se os E.U.A não aceitarem ser julgados fora de seu território e de suas leis – assim como fizeram em seu país contra o Estado do Vaticano (caso de pedofilia) e o Estado do Chile (caso Letellier), terão que submeter-se a um fórum internacional por haver descumprido a Carta da OEA de não intervenção em governos de outros povos.

3) Lamentavelmente, nosso tribunal decidiu apenas que, por hora, o Governo Americano se apresente ao tribunal brasileiro através de notificação e não de citação (talvez esse seja um atropelo ao nosso Código de Processo Civil), para dizer se aceita ou não a jurisdição brasileira ou se entendem ser a intervenção em nossa constituição em 1964 um ato de império ao qual não devem explicações à cidadania brasileira.

4) Será que nossos magistrados, ao decidirem assim, temiam que no caso de citação do embaixador americano, o acusado poderia não se apresentar e o processo correr à revelia?

5) Diante dos fatos de relatos de agentes, geralmente os historiadores se pautam pela dúvida – e infelizmente não pela certeza - de que não tenha havido premeditação na morte de Jango. Cabe a esses pesquisadores buscar o esclarecimento e não o esquecimento. Por que querem impedir o prosseguimento do MP? Nós queremos apenas o exame químico capaz de dizer se houve ou não envenenamento premeditado. Outros parecem que não querem o mesmo.

Pergunto-me o que terá levado Moniz a “virar a casaca” a esta altura da vida? Talvez a possibilidade de ser nomeado cônsul honorário em Heilderberg, sem ao menos pertencer aos quadros do Itamaraty no governo Fernando Henrique? Será que recebeu alguma cobrança de setores do Itamaraty para advogar contra o processo que a família move contra os E.U.A? Vale ressaltar que o atual embaixador do Brasil na Alemanha, Everton Vieira Vargas, um gaúcho de Santo Ângelo protegido de Samuel Pinheiro, grande amigo de Moniz, é filho de um de um sargento que - corre à boca pequena - andou pelo DOI-CODI. Coincidência???

A entrevista de Moniz só faz reforçar minha convicção de que setores oficiais do Brasil e do Uruguai, remanescentes do período ditatorial, estejam desesperadamente tentando sepultar o caso, lançando injúrias sobre minha família.

Tal atitude mostra apenas o temor que sentem de uma eventual investigação do caso pela justiça argentina, país onde ocorreu o óbito. Poderia ser o tiro de canhão capaz de abrir uma brecha na muralha da impunidade, da revisão da anistia que Moniz não quer contra a qual obteve reforço através da lamentável decisão de nosso STF.

João Vicente GoulartDiretor
PresidenteInstituto Presidente João Goulart
www.institutojoaogoulart.org.br

Fonte: http://www.institutojoaogoulart.org.br/blog_home.php?blog=1