quarta-feira, 30 de junho de 2010

BANDEIRAS ESFARRAPADAS

por Janer Cristaldo
Interrogada pela reportagem de Veja sobre a liberação das drogas e do aborto, disse Marina Silva: - Olhe como é a vida! Posso dizer que nunca fui discriminada por ser mulher ou negra, mas agora, pela primeira vez, estou sentindo um grande peso por ser evangélica. Quando os outros políticos se dizem contrários ao aborto, o assunto morre ali. Comigo vira sabatina. Colocam-me rótulos de ultraconservadora, de fundamentalista, que não me cabem, pois não vivo à margem da modernidade. Você não imagina o mal-estar que isto me traz. Mas não vou mexer uma vírgula em meu discurso. Sou a favor da democracia e reconheço o grau de complexidade dessas questões. Por isso, eu as submeteria a plebiscito.
Que discurso? Que vírgula? A candidata não disse nada. Seus entrevistadores, um deles o diretor de redação de Veja – famoso pela histórica barriga do boimate – não ousaram sequer fazer a pergunta que deveria ser feita: e no plebiscito, em qual opção você vai votar? Por ou contra a liberação do aborto e das drogas?
Isso sem falar que a candidata, pertencendo a uma religião que consegue mobilizar dois ou mais milhões de pessoas para uma passeata, se sente discriminada. Ser discriminado está virando moda no Brasil. Negro é discriminado mas vale por dois brancos em um vestibular. Homossexual é discriminado, mas se algum pastor citar o desagrado do bom Jeová em relação ao sexo de homem com homem - mulher com mulher, a Bíblia não condena -, arrisca um processo. Isso sem falar que os ditos gays estão disputando firme com os evangélicos na hora de reunir multidões para suas passeatas.
Dos três candidatos mais em destaque à Presidência da República, é difícil dizer qual o mais dissimulado. Talvez seja morena Marina. Assumiu o topo do muro e não abre. Meio ambiente à parte, não é contra nem a favor disto ou daquilo. José Serra, por sua vez, participa da mesma hipocrisia. “A descriminalização do aborto liberaria uma carnificina” – declarou nesta semana. Ou seja, todos os países do Ocidente onde o aborto é permitido praticam diariamente carnificinas.
Ora, se aborto é carnificina, carnificina é rotina no Brasil. Em 2008, o Ministério da Saúde considerava que um milhão de abortos ilegais eram feitos anualmente no país, apesar da proibição no Código Penal e da forte oposição da Igreja. Ora, se um milhão de abortos são feitos anualmente entre nós, é porque a prática já faz parte dos usos e costumes nacionais.
O mesmo diga-se das drogas. Nas grandes cidades brasileiras, você encontra maconha ou crack com mais facilidade que Melhoral. Os políticos, temendo uma hipotética reação do eleitorado religioso, fingem que aborto e drogas são proibidos e manifestam-se ora contra, ora a favor de sua liberação. Perguntas aos leitores: você viu alguém preso pelo consumo de drogas no Brasil, nas últimas décadas? Eu não vi. Lá de vez em quando prende-se um traficante para mostrar serviço - ou porque não contribuiu com a polícia -, o que não faz nem mossa no tráfico.
Você viu alguma mulher presa por ter praticado aborto no Brasil? Eu não vi nenhuma. Se fossem presas, precisaríamos de prisões suficientes para abrigar um milhão de mulheres... por ano. Isso sem falar nos pais ou maridos que as induzem ao aborto. Nem nos médicos, enfermeiras ou açougueiras que o praticam.
Qual pai ou mãe, por católico que seja, não leva a filha a um aborteiro, quando a gravidez é indesejada? Qual jovem, independentemente de qualquer crença, não procura um médico após ter cometido uma imprudência? Qual rave ou festival de rock não tem farta distribuição de drogas? Será que algum pai não sabe disso? Ou acha que seus filhos consomem refrigerantes nessas festas regadas a ecstasy? Aqui em São Paulo, a distribuição de drogas é feita na porta dos colégios. Sob o olhar complacente da polícia. E ai do professor que ouse denunciar algum traficante! Corre risco de vida.
Na chamada Cracolândia, os nóias fumam seus cachimbos a céu aberto, seja dia ou faça noite. A poucos metros dali, há um posto policial. Se a polícia inventa de levar os pobres diabos a uma delegacia, do nada surge um batalhão de assistentes sociais e defensores dos direitos humanos, protestando contra “a quebra de confiança” decorrente da ação policial.
Político que fala em liberação de drogas ou aborto não passa de um demagogo que finge desconhecer o mundo em que vive. Não merece um pingo de crédito. Ignoram o país real e alimentam a imagem de um país ideal, no qual a droga e o aborto são proibidos por lei. Acontece que lei, no Brasil, pertence ao universo da ficção. De uma ficção não coercitiva.
Quando se trata de droga ou aborto, cumpre a lei quem quiser. Quem não quer, a transgride e nada acontece.

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