quinta-feira, 11 de março de 2010

PERIGO INTERNO

Por Daniela Kresch
Há tempos se discute a influência da tecnologia na juventude, principalmente nas escolas. O que fazer em relação aos telefones celulares dos alunos? Confiscar os aparelhos na entrada das salas de aula? Ou deixar que as crianças falem ou enviem torpedos livremente? O mesmo em relação à internet. Como fazer para evitar que os alunos simplesmente copiem da Wikipédia todo o dever de casa? Nas universidades a situação é ainda pior. Estudantes preguiçosos fazem “copiar/colar” de trechos inteiros que encontram na rede em vez de estudar e escrever trabalhos inéditos. E há os que vão ainda mais longe: compram online trabalhos já prontos, não importa o tema.
Em Israel, a tecnologia também se tornou um problema no exército. Muitos soldados, que possuem celulares de última geração, passam horas conectados à internet (vendo filmes, programas de TV ou ouvindo música) em vez de descansar ou participar de atividades sociais. E mais: se comunicam com parentes e amigos através de SMS durante ações militares, quando deveriam se concentrar para não cometer erros.
No recente conflito contra o Hamas na Faixa de Gaza, no ano passado, muitos soldados revelaram suas sensações e medos através de SMS, atualizando seus pais, irmãos, namoradas e amigos em tempo real. Muitas dessas mensagens chegaram à imprensa em meio a um conflito violento e complicado.


Recentemente, a situação ficou ainda mais complicada com o acesso fácil a sites de relacionamento como Facebook, Twitter, MySpace, Orkut, Buzz e etc. Pelo celular, os soldados podem atualizar seus perfis e enviar mensagens em tempo real. Para muitos jovens de 18 ou 19 anos, essas redes sociais são quase um vício. Como são públicas, esses sites causam ainda mais problemas. O departamento de segurança da informação do exército nunca teve tanto trabalho: seus membros passsaram a ter que surfar pela internet em busca de sites de soldados que decidam revelar dados secretos ou datas de operações militares.
Foi o que aconteceu há alguns dias, quando um soldado decidiu escrever, em seu site no Facebook, que sua unidade iria “limpar” uma aldeia palestina na Cisjordânia num determinado dia. “Limpar” significa, no jargão do exército, deter suspeitos de terrorismo, levando-os para serem investigados. “Na quarta-feira vamos limpar Katana e, na quinta, se deus quiser, estaremos em casa”, escreveu o soldado em seu status. Ele não só revelou o local da ação como a data.
O soldado foi afastado da unidade e punido com 10 dias de detenção. E a tal ação na aldeia de Katana aconteceu dois dias depois, com “sucesso”. Mesmo assim, o perigo desse tipo de revelação está deixando os militares em polvorosa. Como se sabe, o serviço militar, em Israel, é obrigatório. E mesmo que só entre 50% e 60% dos jovens realmente se alistem (ortodoxos, árabes, deficientes e outras minorias não servem), a instituição continua sendo um microcosmo da sociedade. A tecnologia, de repente, se tornou um perigo interno num país que se orgulha de ser avançado tecnologicamente.
Daniela Kresch é Jornalista em Tel-Aviv

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