sábado, 20 de março de 2010

Cadê a Polícia, Deputados?

por José Luiz Prévidi
Chico Buarque cantou: Chame, chame, chame lá / Chame, chame o ladrão, chame o ladrão.
Acompanhe: um sujeito, sem nunca ter se metido em encrenca criminal, resolve assaltar uma loja. Está entulhado de dívidas. Pega emprestado com um primo uma imitação de revólver e assalta uma padaria. Leva uma boa grana do coitado, mas paga suas dívidas e ainda sobra uns trocos para o churrasco no domingo.
Não foi difícil a polícia o achar. Na delegacia, os policiais pegam o seu depoimento e ele se mostra mais do que arrependido. Chamaram o dono da padaria e o ladrão chora, diz que está arrependido e promete pagar tudo. O delegado entra em cena e pede a grana. O nosso ladrão diz que pagou as dívidas, mas que pode pagar a dívida parcelada.
O dono da padaria olha para o delegado, com ar de quem concorda. O delegado, então, soberano, sentencia:
- Então tá, vais pagar em 36 meses para o dono da padaria. Se não cumprir, vou te buscar!!
Algo parecido com isso aconteceu neste início de ano na Assembléia gaúcha. Ficou comprovado que 29 pessoas, entre 2002 e 2009, receberam fraudulentamente mais de 2 milhões de reais. Inclusive 14 continuam trabalhando, sete eram cedidos por outros órgãos, duas já estão de pijama em casa e seis eram CCs, mas já tinham sido mandados para casa.
Aí, o leitor deve estar curioso para saber se os 29 mutreteiros estão presos, se estão sendo caçados os responsáveis pela mutreta – porque para roubar mais de 2 milhões deve ter gente grande no meio.
Nada disso, nem a Polícia foi chamada.
O episódio é tão bizarro que burocratas da Assembléia fizeram campana para encontrar uma mulher que roubou 650 mil reais dos cofres públicos. Claro que não a encontraram! Fico imaginando o burocrata-investigador chegando na repartição, no horário costumeiro, deixa o paletó na cadeira e comunica a chefia: “Estou indo para a tocaia da meliante!”.
Meu Deus do Céu, por que não chamaram a Polícia?! Que capacidade tem uma comissão de burocratas para enfrentar ladrões?!
Pelo que entendi, o atual presidente, Giovani Cherini, pegou o bonde andando. Já tinham decidido, no período do presidente Ivar Pavão, pela tal da “comissão de sindicância”. Só restou a Cherini acatar.
Ontem, o atual presidente assina uma nota. Vejam esse trecho:
Cerca da metade do valor já foi negociada para que haja retorno aos cofres públicos, através de desconto em folha de pagamento de forma parcelada. Com a apresentação do relatório final da Sindicância, os servidores que receberam os valores indevidos serão notificados para apresentarem a sua defesa, num prazo de três dias.
Taí, é o caso do cara que roubou a padaria. Ou tem diferença?
Está comprovado que os 29 roubaram dos cofres públicos e estão sendo tratados como “coitadinhos”. E ainda por cima vão apresentar “defesa”. O que estes bandidos vão dizer?
Tem mais uma: enquanto a Assembleia não publicar o nome dos 29 bandidos, todos os funcionários da Assembléia são suspeitos. TODOS!
A Mesa Diretora da Assembléia tem que chamar o Chefe de Polícia para que se faça imediatamente uma investigação séria e, lógico, profissional. Os especialistas em crimes, tenho certeza, vão identificar os chefes da mutretagem, o que, pelo que se nota, a “comissão” de burocratas não identificou.
A impressão que nos passam é que ninguém está preocupado com os responsáveis pela roubalheira.
Não existe isso de roubar e devolver o roubo em 36 parcelas.
Onde se viu isso?
Se essa “investigação” fosse séria a primeira medida seria uma visita ao secretário da Segurança, porque os ladrões são profissionais – ninguém rouba por sete anos, assim, sem ser do ramo.
Por favor, deputados, cadê a Polícia?!
Cá entre nós
As entidades que representam os funcionários da Assembleia deveriam exigir da Mesa Diretora a divulgação do nome dos mutreteiros. Porque todos estão no mesmo saco. Todos são “suspeitos” da ladroagem.
Da mesma forma, deveriam exigir uma investigação profissional, responsável. POLICIAL.
Ou será que é melhor chamar o ladrão?
Fonte: Blog do Prévidi - 19/03/10

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