sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Quem lamenta sou eu, presidente

por Samarone Lima
25 de fevereiro de 2010, às 12:02h
Em janeiro de 2008, voltei de uma viagem a Cuba que durou um mês, que resultou em um livro (Viagem ao Crepúsculo, Editora Casa das Musas). Naquele janeiro, o presidente Lula visitou a ilha, e acompanhei a mobilização de dezenas de estudantes de Medicina brasileiros, para tentar uma audiência. Em pauta, a revalidação do diploma. O máximo que conseguiram foi falar com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.
Nos jornais e rádios estatais, a visita foi cercada de silêncio. Lula chegou, encontrou com o velho amigo Fidel, tirou fotos, tudo muito divertido e afável. Entre os muitos amigos cubanos, havia um ranger de dentes. Uma raiva interior confessada em palavras baixas. Lula jamais deu uma palavra sobre prisões de dissidentes, violações de direitos humanos, a absoluta falta de liberdade que impera na ilha.
Desta vez, Lula chegou a Havana no fim da agonia de Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência. Após 85 dias em greve de fome, ele morreu. À noite, no necrotério, sua mãe, Reina, deu um breve e comovente depoimento, uma indignação dolorosa e profunda.
Eu digo ao mundo. Esta é a minha dor. Meu filho foi torturado durante todo o período em que esteve preso. Foi assassinado”.
Depois de relatar as torturas sofridas pelo filho durante todo o período em que esteve preso (desde 2003), ela não esqueceu dos demais infelizes que ousaram levantar a voz contra o regime:
Que exijam a liberdade dos demais presos e demais irmãos”.
O depoimento da mãe pode ser escutado no blog da única voz possível vindo de Cuba, a blogueira Yoani Sánchez (www.desdecuba/generaciony)
Forçado pelas circunstâncias a falar sobre a morte de Orlando, Lula respondeu assim:
Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer de greve de fome. Pelo amor de Deus, ninguém que queira fazer protesto peça para eu fazer greve de fome, que eu não farei mais”.
Quem lamenta sou eu, presidente. A circunstância da visita permitiria, pela primeira vez, que uma voz reconhecida mundialmente trouxesse à tona um dos maiores crimes cometidos pelo regime cubano – a perseguição implacável a qualquer voz dissidente, tratados como “mercenários financiados pelos Estados Unidos”. No mínimo, uma negociação pela libertação dos que estão com graves problemas de saúde, os mais velhos, para que possam morrer perto dos parentes.
Lamento que a vítima, um bombeiro hidráulico passe de vítima a culpado. Claro, ele “se deixou morrer” na greve de fome.
Havia uma carta dos dissidentes, que deveria ser entregue a Lula. Ele não recebeu e explicou o seguinte:
Eu não recebi carta nenhuma. As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardar para si e depois dizer que mandam para os outros”.
Tristeza, decepção, indignação. É o que sinto pela morte de um preso de consciência, após a agonia de 85 dias, e pelo que diz o presidente do meu país, com palavras que passam pela vulgaridade. Um homem que tem planos de ser um estadista mundial, que pretende mediar conflitos.
Mas vai uma confissão. Essa postura de Lula não é nenhuma novidade para mim, bem como o profundo, meticuloso e inabalável silêncio de praticamente todas as pessoas esclarecidas e de esquerda no Brasil sobre a realidade cubana.
Após o lançamento do meu livro, que mostra a vida cotidiana, o sofrimento, a penúria e repressão naquela ilha, participei de vários debates. Há os defensores radicais do regime, que me apontam o dedo e dizem que não vi os avanços em saúde e educação. Há dedos em riste, acusadores, as famosas perguntas, se vi crianças nas ruas, se vi mendigos.
Em nenhum dos debates, algum defensor ardoroso perguntou ou falou sobre esta palavra que me move diariamente, e com a qual caminharei até o último dia: Liberdade.
Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos. Não podem escrever um artigo para publicar no Granma, pedindo respeito aos direitos humanos.
Conheci de perto a azeitada máquina repressiva cubana. A rigorosa cobrança da identidade aos jovens mulatos. Os infames “Comitês de Defesa da Revolução”, verdadeiras máquinas de vigilância e delação, instalados em todos os bairros. Escutei relatos sobre a vida nas prisões de Cuba, por uma mulher admirável, que me hospedou, enquanto juntava os trocados para visitar o filho preso, a cada 15 dias.
O que está acontecendo em Cuba é uma tragédia humana que um dia será contada. A Anistia Internacional calcula em mais de 200 presos de consciência. Não mataram, não roubaram, não desviaram dinheiro. Ousaram falar, escrever, questionar.
Orlando Zapata Tamoyo passou por uma longa agonia, e morreu às vésperas da chegada de um presidente que foi preso porque liderou operários, em busca de liberdade.
Zapata não se deixou morrer, presidente Lula.
Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: de liberdade.
Fonte: Estuário
COMENTO: o atoleimado alçado ao posto de maior autoridade brasileira, no qual se mantém há quase oito anos, sequer tem capacidade para modificar a desculpa por sua incompetência. Apegou-se à uma desculpa que deu certo e a partir daí utiliza-se da mesma, com algumas variantes, para safar-se dos incômodos. O "eu não sabia" tornou-se uma coisa milagrosa. Assim foi no caso de Waldomiro Diniz, o corrupto dos Correios; igualmente no "mensalão" denunciado por Roberto Jefferson; que foi seguido pelo caso dos "aloprados" e sua mala de dinheiro - cuja origem até hoje não foi apurada pela PF -; ignorou, ainda, o "dossiê" sobre os gastos de Fernando Henrique, elaborado na Casa Civil, e como essa ignorância toda nunca é questionada, segue utilizando essa desculpa esfarrapada. Agora, o Apedeuta alega que "não recebeu" a carta dos dissidentes cubanos solicitando ajuda. Novamente "não sabia" de nada! Obviamente, de um Presidente da República que afirma não ler jornais por que lhe dão azia, e que assina decretos sem saber seu conteúdo, não se pode esperar muita coisa em termos de conhecimento. Mas há uma questão que me parece ter sempre passado ao largo dos críticos do Idiota do Planalto. E a quantia enorme de "açeççores" de que ele dispõe? Para que servem? Mesmo que se abstraia a "máquina de inteligência petista" montada há muitos anos por sindicalistas, jornalistas, bancários, professores e outros profissionais atuantes em diversos ramos de atividade, não podemos esquecer a existência de um Gabinete de Segurança Institucional, responsável não somente pela segurança física do ocupante dos Palácios da Alvorada e Planalto, mas também pela segurança da imagem do Presidente da República. Ora, no dia 21 passado, diversos jornais brasileiros noticiaram e até publicaram o texto da "carta dos dissidentes cubanos". Tal texto também foi extensamente difundido pela rede mundial de computadores. Impossível acreditar que nenhum funcionário, dos que tem por missão antecipar "ameaças e oportunidades", particularmente no campo diplomático, tenha se preocupado em alertar sua chefia sobre possíveis repercussões internacionais que poderiam advir da tal "carta". Será que o Apedeuta queria um documento enviado pelos Correios Cubanos e "protocolado" em Brasília? Ou que tal documento lhe fosse entregue "em mãos" pelo Coma Andante? É muito cinismo e hipocrisia!! Com certeza, o Imbecil também não sabe nada sobre as diversas prisões que se seguiram à morte de Orlando Tamayo para evitar manifestações contra-revolucionárias durante seu velório.

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