terça-feira, 16 de junho de 2009

PUC Alerta Gentilmente Alunos Que Consumir Drogas é Ilegal

por Janer Cristaldo
A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) anunciou hoje a interdição de um dos mais antigos maconhodrómos da capital, seu câmpus em Perdizes. A notícia é do Estadão. Sempre foi público e notório o uso dos campi para consumo da canabis. Como os eruvin judaicos – território definido pelos rabinos onde um judeu pode fazer no shabat tudo que é proibido a um judeu fazer no shabat os universitários dispunham de um território próprio para consumir as drogas legalmente proibidas, e é óbvio que não deveriam se limitar à maconha. Se você quer fumar sua canabis ou cheirar sua cocaína sem maiores preocupações com a polícia, faça um vestibular. Uma vez dentro do câmpus, você está coberto de imunidades. Lá a polícia não chega e você pode curtir sua erva ou pó sem a desagradável intervenção desses estraga-prazeres.
Em 2003, o caso de uma universitária aleijada por um tiro na universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, trouxe à tona um dado óbvio, que autoridade universitária alguma gosta de comentar. O câmpus da Estácio era o mercado privilegiado dos traficantes, instalados no morro contíguo. Segundo gravações telefônicas feitas pela polícia, os líderes do tráfico estavam esperando o início das aulas para fazer caixa e comprar armas.
Comentei na ocasião: “Duas pestes a universidade introduziu no Brasil. O marxismo foi a primeira. Mais letal e destrutiva que qualquer droga, foi introduzida pela USP no país e a partir de São Paulo contaminou o universo acadêmico do país todo. A segunda foi a droga. Começou pela maconha, que adquiriu prestígio nos campi americanos, onde conservava seu nome mexicano, marijuana. Consumida anteriormente por marginais, foi elevada à dignidade universitária. Com esta bendita mania que temos de importar do Primeiro Mundo o que de pior o Primeiro Mundo produz, logo foi adotada pela universidade brasileira. O leitor deverá ter conhecido ou ouvido falar de pequenas comunidades do interior do país, onde a droga inexistia. Basta criar um curso ou extensão universitária nalguma dessas comunidades, e no dia seguinte a droga e o tráfico lá se instalam.
“Desde há muito se sabe que os campi abrigam aprazíveis fumódromos, protegidos pela asa cúmplice dos reitores. Mas ai de quem disser que o rei está nu. Foi o que aconteceu com o psiquiatra Içami Tiba. Ao analisar o caso de Suzane von Richthofen, estudante de direito da PUC de São Paulo que matou os pais no ano passado, afirmou: 'A PUC é um antro de maconha'. Que a maconha tinha livre curso na PUC, isto era público e sabido, e nenhum universitário negará este fato. A PUC, melindrada, entrou com dois processos contra o psiquiatra: um de indenização por danos morais e uma queixa-crime por difamação. O crime foi dizer em público, com todas as letras, o que era público mas jamais admitido”.
Foram precisos seis anos para que um reitor, finalmente, admitisse em público o uso de drogas no câmpus de Perdizes. O atual reitor, Dirceu de Mello, decidiu defender o “franco enfrentamento do problema” e coibir o consumo nas dependências universitárias. “A PUC não quer ser marcada como um território livre para o uso de drogas. O que é ilegal não pode e pronto. Aqui não é lugar para ficar fumando maconha” – disse o pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias, Hélio Roberto Deliberador.
Os 120 seguranças da Graber, uma prestadora de serviço, receberam treinamento para abordar quem for visto consumindo drogas na unidade. Mas a abordagem será leve. Nada de encaminhar à justiça que for flagrado cometendo um ilícito. Em média, dez usuários por dia serão abordados. E por que apenas dez usuários? Deliberador não explica. É de supor-se que para não espalhar a inquietação entre estes bravos jovens – o futuro da nação – que finalmente encontraram um eruvin tranqüilo onde transgredir a lei sem temer as conseqüências da transgressão à lei.
Se o leitor imagina que o transgressor será encaminhado às autoridades para a devida punição, em muito se engana o leitor. Os funcionários da Graber pedirão gentilmente que o cigarro seja apagado, alertarão – ó novidade! – que o uso é ilegal e que a universidade não é o espaço adequado para o consumo. Fica no ar a pergunta: segundo a PUC, qual seria o espaço adequado? Assim como os adeptos do tabaco estão sendo expulsos dos bares, os curtidores da erva estão sendo reprimidos no território livre e sem lei da PUC.
Na ocasião do tiro na estudante da universidade Estácio de Sá, o então secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, ficou seriamente preocupado com o caos social decorrente do fim do tráfico: "Imagine se nós conseguíssemos fechar todas as bocas-de-fumo por uma semana e não fosse vendido um papelote de cocaína ou um grama de maconha? O que aconteceria com 700 mil pessoas depois de três dias sem usar droga, em crise de abstinência? Um pânico igual aos tiroteios que nós assistimos todos os dias na televisão. Aquilo que vocês têm mostrado nas páginas da Folha: pai matando o filho, filho matando e roubando a mãe, filho declarando que ama mais a cocaína que a própria família".
Preocupação digna de humanista que vê longe. Garotinho passou um recado à favela: dos bons serviços de vossos traficantes depende a paz social da nação. Nestes dias em que se erguem estátuas a Marighella e Cazuza, só falta erguer um monumento a este benemérito cidadão, o Traficante Desconhecido.
Segundo o pró-reitor da PUC, o segundo passo será identificar os usuários reticentes e os dependentes, até o próximo semestre. Esses estudantes serão chamados e encaminhados para acompanhamento socioeducativo com equipe multidisciplinar. Depois, será sugerido tratamento especializado.Isso se o aluno quiser, porque não podemos impor tratamento para ninguém– deliberou Deliberador, garantindo que nenhum aluno será desligado da PUC.
Quer dizer, os universitários serão alertados que fumar maconha é ilegal, que universidade não é o lugar adequado para ilegalidades, mas se quiserem continuar fumando sintam-se à vontade. Punição alguma, nem mesmo aquela ao alcance da PUC – o desligamento – será tomada.
O tráfico, penhorado, agradece.

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