segunda-feira, 18 de maio de 2009

Passagens e Destinos

por Percival Puggina
Ao orientar os holofotes da mídia apenas sobre os lamentáveis abusos constatados no Congresso Nacional, a sociedade brasileira reproduz, de certo modo, a situação do sujeito que caça o rato na despensa enquanto o hacker invade sua conta bancária. Toda reprovação, claro, aos maus usos e péssimos costumes estabelecidos no Parlamento. Mas é preciso não enterrar a cabeça nessa pauta em prejuízo da atenção devida ao que acontece acima e além.
É de causar engulhos o que foi desvendado sobre o uso de passagens aéreas pelos congressistas. Mas o total despendido pelo Congresso Nacional com viagens, diárias e auxílio alimentação, no exercício de 2008 – absurdos R$ 297 milhões! – correspondeu a 11% do que foi consumido com essas mesmas rubricas pelos Três Poderes. Como foram gastos os outros 89%? Aqui vai um exemplo sobre a facilidade com que se descolam passagens aéreas: raros eventos internacionais terão sido tão atabalhoados quanto a conferência da ONU sobre Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, encerrada em Genebra em meados de abril. Pois bem, para aquela reunião onde despontou o discurso racista, xenófobo e intolerante, por todas as formas conexas e desconexas, do iraniano Ahmadinejad, nosso governo patrocinou a viagem de seletíssima delegação. Lá se foram 33 brasileiros para a bela Suíça. Eram agentes do governo, representantes de uma boa dezena de desconhecidas ONGs voltadas para questões raciais e declarados militantes políticos, como o de uma certa “Articulação Política da Juventude Negra”. Todos alinhados e perfilados na base do governo, claro.
Dê uma olhada, leitor, no site “Contas Abertas” e busque os números relativos ao ano de 2008. Ali, você verá que em todas as suas funções, a Câmara dos Deputados, com seus 513 membros, empenhou R$ 3,3 bilhões e o Senado Federal, com 81 senadores, empenhou R$ 2,8 bilhões. Uma montanha de dinheiro, não é mesmo? Agora, corra os olhos pelas outras linhas e perceberá que o Tribunal de Contas da União (nove ministros) empenhou R$ 1,1 bilhão, que o Supremo Tribunal Federal (11 ministros) empenhou 0,48 bilhão e que o Superior Tribunal de Justiça (30 ministros) empenhou R$ 0,8 bilhão.
E a Presidência da República? Também está ali o número: R$ 5,5 bilhões. Ou seja, quase tanto quanto as duas casas do Congresso somadas! Sob o manto da Presidência, esclareça-se, estão incluídos vários daqueles ministeriozinhos que Lula criou para aumentar seu poder de fogo político.
Mas saiba, leitor, tudo isso, mesmo onde houver, se houver, prodigalidade ou ilícito, é apenas rato na despensa. Dinheiro, mesmo, grana alta, sai do nosso bolso pelo ladrão dos encargos da dívida pública interna: R$ 571 bilhões. É isso mesmo. Cem vezes mais do que consome o Congresso é despendido com o custeio de uma dívida gerada por gestão fiscal irresponsável, acumulada ao longo de décadas, e por uma taxa de juros delinquente, que se mantém como a mais elevada do planeta.

Repito, não estou exonerando o Congresso de suas culpas. Mas vamos combinar que ali está o alvo mais fácil, mais desfibrado e mais incompetente. Se pequena parte da energia gasta para bater em cachorro semimorto fosse direcionada para cobrar dele e do governo as reformas de que o país necessita, certamente estaríamos num estágio superior. Mais do que com as passagens, estou preocupado com os destinos do Brasil em meio a tantos descontroles e a tão escassa compreensão sobre as causas das nossas mazelas sociais, políticas, fiscais e institucionais.

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